Nesse mês, um detento do Presídio Regional de Passo Fundo foi internado no Hospital São Vicente de Paulo com suspeita de Leptospirose. O fato não causou maiores espantos em quem mora nas redondezas do local, pois as reclamações sobre o esgoto a céu aberto no Bairro São Luiz Gonzaga, nas proximidades do Rio Passo Fundo, não são atuais. Os moradores, que já conhecem o risco que correm, estão acostumados com o mau cheiro e a presença de roedores.
De acordo com o Presidente de Bairro, Rodolfo Boita, a suspeita da causa está ligada ao esgoto do presídio, que escorre nas ruas, formando poças muito próximas ao rio que abastece a cidade. “Esse é um problema histórico. Em 1974, foi instalado o Presídio Regional. Na década de 90, asfaltaram algumas ruas, inclusive a Martins Fontes, onde foi feito um esgoto pluvial. O esgoto cloacal do presídio foi ligado a esse pluvial, desaguando bem próximo ao Rio Passo Fundo”, declara.

Para ele, a grande quantidade de água contaminada que desce também é consequência da superlotação, visto que a estrutura do local foi construída para suportar 288 detentos e hoje conta com cerca do triplo desse número. “O presídio sofre com superlotação e essa quantidade de pessoas puxando a descarga o tempo inteiro também traz problemas a quem mora pela redondeza”, enfatiza.
Segundo o morador Iuri Marques, quem cria gado na área precisou levar os animais para outros lugares. “Precisamos tirar as vacas de leite e mandá-las para outra pastagem durante o inverno. É muita água contaminada e muito rato saindo das bocas de lobo. Está complicado de conviver com a situação. Já fiz uma liminar contra o Estado por essa ‘aguaceira’, mas não deu em anda. Isso traz doenças ao ser humano e aos animais que estão na área”, justifica.
Para onde recorrer?
O morador ouvido conta que já fez uma liminar contra o Estado por conta do esgoto que desce do presídio. Conforme o Secretário de Transportes e Serviços Gerais, Cristian Thans, é preciso averiguar a situação com cautela para que depois seja tomada uma decisão. “É preciso que se faça uma fiscalização no local para saber o que, de fato está acontecendo. Não sabia da história, mas, se caso seja comprovado que o esgoto desce mesmo do presídio, cabe ao município contatar o Estado porque o local é de responsabilidade estadual”, pontua.
O Presidente de Bairro conta que denúncias já foram feitas inúmeras vezes, mas ninguém tomou iniciativa para tentar resolver o problema. “Alguns garotos já morreram ao se banharem nas águas da redondeza. Não são só fezes que descem com a água, mas restos de alimentos. Esse conjunto traz ratos para dentro de nossas casas. Já denunciamos no Ministério Público, convocamos a imprensa para nos ajudar, mas não obtivemos retorno”, desabafa.
A doença
A leptospirose é uma doença infecciosa transmitida ao homem por uma bactéria chamada Leptospira, presente na urina de alguns animais, principalmente dos ratos. Os principais sintomas são: febre, dor de cabeça e dores pelo corpo, com mais intensidade nas panturrilhas. Também podem ocorrer vômitos, diarreia e tosse. Nas formas graves, o infectado pode adquirir pele mais amarelada.
A doença é transmitida quando a urina dos ratos contida nos esgotos se mistura à enxurrada e à lama. Quem tiver contato com essas substâncias pode facilmente se infectar, pois a Leptospira penetra no corpo através da pele e, com mais frequência, por ferimentos. Ela é tratada com medicamentos prescritos e, muitas vezes, sob internação, podendo ser letal.
Esgoto cloacal
O esgoto pluvial é formado pela chuva e pela água de lavagens de carros, pátios ou regas de jardim. O cloacal, por sua vez, vem da água servida, ou seja, da pia da cozinha, do banheiro e da descarga dos sanitários.
Via: Diário da Manhã