by 

Marcelo Barros

Há poucos dias, em vários jornais, apareceu a
fotografia de uma criança síria, ferida por uma mina terrestre, arma que decepa
pernas, braços, quando não tira a vida das suas vítimas. Ela tinha nas mãos o
resto da mina na qual se lia uma marca: “Made in Brasil”. Essa mesma marca se
encontra em fuzis automáticos, metralhadoras, granadas de mão e outras armas
ainda mais sofisticadas, vendidas pelo Brasil no mercado internacional. O
governo brasileiro autoriza a exportação de vários tipos de armas para
organizações e governos, independentemente se são de direita ou de esquerda, eleitos
ou ditatoriais, se usarão essas armas contra seus próprios cidadãos ou se farão
guerra a outros povos. Segundo a Folha de São Paulo, armas brasileiras
são usadas pela Bósnia na Europa, por judeus e pelas guerras suicidas na África,
como também são vistas na Síria, palco de uma guerra civil com milhares de
vítimas.

As bombas de fragmentação são armas proibidas
por organismos internacionais, porque não têm alvo preciso. Desintegram-se no
ar, em milhares de bolas de aço que, em um imenso raio, matam qualquer ser vivo
que encontram pelo caminho. A maior vítima desse tipo de armas são civis e
principalmente crianças.  O jornalista
Rubens Valente provou que o presidente Fernando Henrique Cardoso autorizou a
produção e venda de bombas de fragmentação ao governo do Zimbabue, do ditador
Robert Mugabe que usa essas armas para manter sua política de apartheid racial.
Também Israel usou armas brasileiras contra acampamentos de palestinos sem
terra, em Gaza, matando idosos e crianças (Cf. Folha de S. Paulo, 3ª f,
24/ 07/2012, p. A6).

Essa semana recorda que no dia 06 de agosto de
1945, os norte-americanos jogaram uma bomba atômica sobre a cidade de Hiroshima
e no dia 08 jogaram outra sobre Nagazaki. Mataram milhares de pessoas inocentes
e jogaram o mundo inteiro na corrida armamentista. Hoje, diante dos mísseis e
das armas nucleares mais recentes, as bombas jogadas sobre Hiroshima e Nagazaki
parecem inofensivos fogos juninos.

Todo terremoto tem um epicentro, a partir do
qual ele se espalha. Mas, esse epicentro depende de uma falha geológica,
ocorrida no mais profundo da terra. A violência também é assim. Tem um epicentro
que são suas causas sociais, políticas e econômicas. Mas, cresce no plano mais
profundo da cultura das pessoas. Se na sociedade, vigora uma cultura da
violência, vai sempre explodir uma guerra ali e outra acolá. Na semana passada,
em uma cidade do Colorado, nos Estados Unidos, na pré-estréia do novo filme do
Batman, James Holmes, 24 anos, estudante de neurociência entrou no cinema e
atirou sobre a plateia. Matou 12 e feriu 58 pessoas.

José Carlos Escobar, psiquiatra pernambucano,
diz que na Psiquiatria, existe um fenômeno chamado patoplastia. Ele ocorre quando os sintomas de uma doença se moldam
a determinada cultura. Nos Estados Unidos, há mais de século, as pessoas
respiram guerra e a sociedade fala de violência. O país tem 309 milhões de
pessoas. Existem registradas legalmente 270 milhões de armas em mãos de
particulares. As pessoas são treinadas para matar e morrer. Nessa cultura
pautada pelas armas, o desequilíbrio psíquico e os acessos psicóticos de alguém
facilmente se expressarão através desse canal que a sociedade oferece mais: a
violência. Quando pensamos nas armas brasileiras e na cultura da violência
desenvolvida pelos jornais de televisão e certos programas de rádio, é bom
tomarmos cuidado para evitar a patoplastia.

Infelizmente, na história, as religiões que
deveriam ser testemunhas de Deus como amor e fonte de paz foram as que mais
provocaram guerras e violências. É preciso que todas as tradições espirituais
se unam em um grande mutirão para denunciar a cultura da violência vigente em
nossa sociedade e trabalhar pela paz, tanto no coração das pessoas, como nas
estruturas sociais, paz que vem da justiça e está ligada ao cuidado com a vida
de todo ser vivo na natureza. Jesus falou: “são abençoadas as pessoas que
trabalham pela paz porque, ao fazer isso, elas fazem o que Deus faz” (Mt 5, 9). 
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