Enquanto um modelo sustentável ideal está longe de ser alcançado, mudanças em projetos podem fazer a diferença para cuidar do meio ambiente
A redução a zero do impacto ambiental causado por construções de qualquer tipo é praticamente impossível. O cimento, o transporte e o tipo de materiais utilizados, a demanda por energia e a destinação dos resíduos gerados influenciam no fator sustentabilidade de uma obra. Enquanto um modelo ideal de economia verde que inclua todos os setores ainda é uma utopia, um planejamento adequado e a utilização inteligente dos recursos naturais disponíveis contribuem para diminuir danos sem necessariamente aumentar os custos de um edifício ou casa. Projetos que incluam conceitos de eficiência energética, por exemplo, podem aproveitar melhor a luz solar, permitir o conforto térmico e ainda reutilizar a água da chuva. O custo de tudo isso? Em muitos casos não chega a 5% do valor total da obra. E o benefício fica claro no cuidado com o meio ambiente e também na ponta do lápis: economia de até 30% em recursos durante o uso e ocupação do imóvel.
Na teoria parece fácil, mas na prática nem sempre é o que acontece. De acordo com o professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Passo Fundo (UPF), Rodrigo Carlos Fritsch, a falta de planejamento, detalhamento dos projetos e conhecimento técnico por parte dos projetistas impede que isso seja levado adiante. Aliado a isso, a falsa crença de que obras planejadas, para serem ecologicamente corretas, são mais caras, é outro fator que freia a ampliação de projetos deste tipo. “No passado, acreditava-se que uma construção com estratégias sustentáveis ficasse entre 20% e 30% mais cara. Hoje, temos dados que apontam que a adoção de soluções ambientalmente sustentáveis na construção não acarreta em um aumento de preço, principalmente quando adotadas durante as fases de concepção do projeto. Em alguns casos, podem até reduzir custos”, ressalta Fritsch.
Menos gastos
O professor cita um estudo realizado na Inglaterra, em 2004, chamado “Costing sustainability. How much does it cost to achieve BREEAM and EcoHomes ratings?”. A conclusão é que, em alguns casos, a adoção de estratégias avançadas de sustentabilidade podem reduzir custos. Ele também faz um comparativo econômico no que diz respeito a implementação de alguns sistemas ambientalmente sustentáveis em um edifício verde. Esse tipo de projeto pode ter um custo cerca de 5% maior do que um edifício convencional. Porém, a utilização destes sistemas pode representar uma economia de 30% de recursos durante o uso e ocupação do imóvel. Essa diferença apontada não está relacionada à necessidade de elementos mais caros, mas sim às estratégias do projeto, como a opção por adquirir materiais da própria região, minimizando gastos energéticos de produção e deslocamento e consequentemente diminuindo o impacto.
(Rodrigo Carlos Fritsch, professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da UPF / FOTO: ARQUIVO )
Conta de luz controlada
A conta de energia elétrica pode ser uma dor de cabeça para as famílias e a tendência é de que as tarifas fiquem ainda mais altas. Isso justifica, mais uma vez, a adoção de estratégias que minimizem esses gastos. “O projetista deve, portanto, buscar soluções alternativas para o modelo vigente de construção que, a priori, não contempla o desempenho e a eficiência da edificação, assim como poucas vezes prioriza o conforto do usuário”, reforça o professor. Essas estratégias incluem a correta adequação da edificação ao lote, análise do ciclo de vida e consequente escolha responsável dos materiais utilizados em todas as fases do projeto, assim como estratégias de minimização de ganhos térmicos para o verão e perdas no inverno, isso aliado à utilização de recursos naturais como o sol, os ventos e a água da chuva.
Diário da Manhã – Dentro do conceito de economia verde, qual a importância da área de infraestrutura?
Rodrigo Fritsch – Uma grande importância, pois a mudança de paradigma do modelo atual para um modelo baseado na economia verde possibilitará também modificar o futuro da economia nacional e internacional. O correto planejamento, execução e ampliação dos elementos da infraestrutura como rodovias, facilitando a logística, a correta destinação e consequente reciclagem de resíduos sólidos e líquidos, energia elétrica, energias alternativas, dentre outros, acarretarão a redução de custos, o aumento da produtividade, o aprimoramento da qualidade dos bens e serviços da estrutura produtiva e a consolidação da integração entre regiões.
DM – De que forma os materiais utilizados hoje implicam na sustentabilidade das construções?
RF – Através dos gastos energéticos para sua obtenção, produção e deslocamento, o material pode ser um elemento responsável por grande impacto ambiental. A análise do ciclo de vida deste material, portanto, é muito importante para que se verifique qual a verdadeira abrangência do impacto e a possível implicação deste sobre o meio ambiente.
DM – Qualquer tipo de obra, de casas populares a edifícios, pode seguir padrões sustentáveis? Como?
RF – Sim, todos os tipos de edificações podem e deveriam seguir padrões de sustentabilidade. Os projetistas tem responsabilidade com o futuro do planeta, pois se sabe que grande parte do problema da crise energética atual se deve, em parte, a edificações ineficientes e mal projetadas. Assim, a adoção de estratégias mais sustentáveis deve ser levada em consideração nas fases iniciais do projeto, priorizando o desempenho, o conforto e a eficiência energética destas edificações.
Via Diário da Manhã