Embora Ana Paula Maciel e os demais 29 tripulantes do navio Arctic Sunrisenão tenham conseguido estender uma faixa de protesto na plataforma de petróleo russa no Ártico, a prisão dos ativistas do Greenpeace fez reverberar a mensagem de que essa região, fundamental para equilibrar o clima do planeta, está mais vulnerável do que nunca.
Desde o auge do verão no extremo norte do planeta, quando 30 tripulantes de um barco do Greenpeace tentaram, em 19 de setembro, protestar contra a exploração de petróleo, a paisagem no Ártico mudou. O inverno se aproxima, 29 membros do grupo foram libertados sob fiança e, a julgar pela reação da Rússia que enjaulou e indiciou os ativistas por vandalismo e pirataria, o mundo pelo menos desconfia que algo preocupante está em andamento naquela calota polar.
Mesmo com todo o barulho do Greenpeace nesses dois meses, os planos da estatal russa Gazprom, dona da plataforma que os “Arctic 30” tentaram escalar no protesto, não mudaram. Até o Natal, a companhia deve extrair os primeiros barris de petróleo em águas congeladas no Ártico — um marco em uma região vulnerável, na qual os maiores degelos foram registrados nos últimos sete anos.
Desde 1979, o Ártico perdeu área equivalente a dois Alascas, e, mesmo com controvérsias, a teoria aceita pelos cientistas é a que atribui boa parte desse fenômeno às ações do homem, como o abuso de combustíveis fósseis. “A rápida perda no gelo do Ártico deveria fazer soar o alerta para todos”, escreveu o pesquisador Ted Scambos, do Centro Nacional de Dados sobre Neve e Gelo nos Estados Unidos.
Nesse mapa, que tem o Círculo Polar Ártico cada vez mais diminuto, o homem começou a se aproveitar da nova geografia. Rotas de navegação foram abertas, reduzindo distâncias e custos para a exploração da região.
— É um ciclo vicioso que não faz o menor sentido, é muito louco. Eu causo o aquecimento global procurando petróleo e usando combustível fóssil, aí o gelo derrete e eu vou lá para procurar mais óleo e causar mais aquecimento global — resumiu a bióloga brasileira Ana Paula Maciel, uma das detidas pela Rússia, em entrevista a Zero Hora.
Desde meados da década passada, quando institutos americanos identificaram o potencial de exploração de 90 bilhões de barris de petróleo, houve uma corrida em direção ao Polo Norte. Em razão das dificuldades técnicas, o início da produção foi adiado.
— O que queremos mostrar aos investidores é que, além de caro, é muito arriscado explorar o Ártico. Se todo o petróleo na região fosse explorado, supriria as necessidades globais por três anos. Isso não é muito, se pensarmos o risco que representa — afirma Ben Ayliffe, chefe da campanha da ONG contra a exploração de petróleo no Ártico.
Santuário é sonho distante
A plataforma de Prirazlomnoye, distante 60 quilômetros de Murmansk, o porto mais próximo no noroeste da Rússia, tem tecnologia que, segundo a Gazprom, permite a extração 12 meses por ano de forma absolutamente segura. Uma casualidade, porém, seria um desastre, já que o óleo não se dissipa em águas congeladas, dificultando a limpeza. Um exemplo disso são os vestígios ainda visíveis do acidente com a plataforma da Exxon Valdez no Alasca, em março de 1989.
Além de conter o uso de combustíveis fósseis no mundo e de evitar que tendência lançada pela Rússia se alastre — a Shell já tem licença para fazer o mesmo no Alasca e a Statoil, na Noruega —, o maior objetivo dos ativistas do Greenpeace é criar um santuário que resguarde o perímetro de águas internacionais (veja no mapa ao lado) restrito a pesquisas. Seria algo como a Antártica, continente onde a exploração mineral é proibida.
— Pela proximidade e dependência que os países do norte têm, o que está em jogo no Ártico é muito mais complexo do que estava em jogo quando o Tratado Antártico foi estabelecido, e os países estão muito mais próximos. O Ártico é muito valioso para os Estados o deixarem intocado — pondera Stefan Kirchner, professor na faculdade de direito da Universidade da Lapônia em Rovaniemi, na Finlândia.
Além das áreas que já podem explorar, os países no Círculo Polar reivindicam o direito de avançar sobre esses limites. Só a Rússia quer explorar quase metade dessa área — uma mostra de que manter a paisagem do Ártico intacta é um sonho mais distante do que a que separa os polos do planeta.
Gráfico: cenário pessimista no Ártico
Por: Zero Hora

