Embora as farmácias recebam medicamentos vencidos ou que não são mais utilizados, o descarte nas lixeiras comuns e na pia de casa ainda afeta o meio ambiente
Você sabe dos riscos que oferece ao meio ambiente quando descarta um medicamento na pia do banheiro ou no balde de lixo? Um estudo desenvolvido pela Faculdade Oswaldo Cruz, de São Paulo, revela que 70% da população diz não a essa pergunta. Como no Brasil ainda não há ações efetivas sobre a prática, mesmo com inúmeras leis e portarias que tratam dos medicamentos, cresce a necessidade de políticas de conscientização.
Até a promulgação Lei n.º 12.305, de 02 de agosto de 2010, conhecida como Política Nacional de Resíduos Sólidos, o descarte de medicamentos era negligenciado pelo Poder Público e segmentos envolvidos com a distribuição. Com uma alteração proposta em 2013, o texto aprovado obriga seus fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes a assegurar sistema de logística reversa para que os consumidores os devolvam no momento em que não fizerem mais uso.
Em Passo Fundo, as farmácias de três redes consultadas mantêm um ponto de coleta, que é realizada pelos farmacêuticos com os devidos cuidados, uma vez que a exposição aos materiais pode ser perigosa. “O serviço é bastante procurado, principalmente para seringas e agulhas. Por mês, recolhemos cerca de 70kg e a empresa que dá a destinação dos materiais se dispõe a vir antes do término do mês quando a demanda é maior”, enfatiza o farmacêutico de uma das redes, André Calleti.
A empresa responsável por destinar corretamente os medicamentos da rede procurada para a matéria não é a mesma contratada pela prefeitura, que também faz o trabalho de recolhimento através de suas farmácias. As semelhanças são que ambas são terceirizadas e possuem licença ambiental. A Secretaria Municipal de Saúde informou que os medicamentos só são aceitos quando a pessoa declarar o lote e a data de vencimento. Depois de recolhidos, eles são incinerados ou enterrados conforme a carência.
Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), estima-se que o volume recolhido de resíduos domiciliares de medicamentos pelas empresas de coleta some de 10 mil a 28 mil toneladas por ano no Brasil. Em locais onde não existe aterro sanitário, ele é armazenado em lixões a céu aberto. Lá, as substâncias se infiltram no terreno, prejudicando o solo e as águas naturais, onde causarão problemas adversos aos peixes.
Quando descartados no vaso sanitário, por exemplo, os fármacos contaminam os afluentes de Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs). No caso de serem colocados no lixo comum, podem ser ingeridos por pessoas que sobrevivem com o que as outras não precisam mais, ocasionando reações, como náusea, alergias intoxicação se a dose for má administrada. “Alguns medicamentos perdem os seus efeitos quando vencem e não causam nada. As reações dependem do organismo, mas é sempre bom evitar”, ressalta o farmacêutico.
Ao passo que algumas farmácias registram altos índices de descartes, outras reclamam o oposto. Numa das redes, a farmacêutica responsável identifica que, mesmo tendo um ponto de coleta extremamente visível e atrativo, as pessoas ainda não compreendem a importância de, assim como as farmácias, ajudarem a evitar degradações ambientais. A cliente Maria Cristina Fragomeni diz que nunca fez o descarte em um local que dá a destinação adequada. “Está tudo guardado em uma caixa lá em casa. Um dia eu pretendo trazer”, finaliza.
A ausência de controle
A Anvisa dispõe de informativos sobre a problemática do descarte incorreto. Em uma das publicações, a agência defende que ela atinge tamanha proporção pois há fatores como:
– Dispensação de medicamentos além da quantidade exata para o tratamento do paciente;
– Apresentações não condizentes com a duração do tratamento;
– Não implantação do fracionamento de medicamentos pela cadeia farmacêutica;
– Interrupção ou mudança de tratamento;
– Distribuição aleatória de amostras-grátis;
– Gerenciamento inadequado de estoques de medicamentos pelas empresas e estabelecimentos de saúde
– Carência de informação da população relacionada à promoção, prevenção e cuidados básicos com sua saúde.
Via: Diário da Manhã