• CONSERVAÇÃO DE SOLO , há ainda muito a ser feito

  • Voltar

Por Waner Sanches Barreto, Professor, Doutor em Ciências Biológicas, integrante do GESP
Desde os tempos de Nabucodonosor e os jardins suspensos da Babilônia, já existia a preocupação e um conjunto de ações para conservação de solos férteis. No Egito antigo, os cultivos em áreas aluviais resultantes das cheias do rio Nilo, exigiam apuradas técnicas conservacionistas. Isso demonstra que desde os primórdios da civilização já vem a consciência de que o solo é um bem da natureza, usado como recurso para a humanidade produzir matérias-primas e alimento.
No Brasil, somente nas décadas de 1960 e 1970 é que começaram algumas ações, embora ainda tímidas e esporádicas, para desenvolver práticas conservacionistas.
Nos meios urbanos, as construções ignoram as declividades dos terrenos e, na maioria das vezes, promovem grandes nivelamentos com toneladas de movimentação de solo.
Entretanto, é nas terras de agropecuária que se verifica com mais evidência a necessidade de programas e projetos de conservação de solos, de médio e longo prazo. Em contrapartida, cada vez mais se evidencia que a abordagem de “erosão zero” é equivocada. O largo e rápido processo de antropização criou um sistema de input (entrada) e output (saída), com o uso extensivo tecnológicos, que afetam a troca de massa e energia do solo. A adoção total da semeadura direta (SD), popularmente chamado de plantio direto, vem associada ao combo de fertilizantes e agrotóxicos. No primeiro momento, esse sistema trouxe inúmeras vantagens, especialmente sobre a erosão hídrica (causada pela chuva), elevando o excesso de confiança de técnicos e agricultores, os quais abandonaram os cultivos em contorno, a rotação de culturas e multicultivos.
A destruição dos antigos terraços, resultou em um novo padrão de plantio, que obedecendo o sentido de maior distância, a padronização das condições de solos, com a adição de calcário, que causa a degradação química e a precipitação do alumínio trocável, causam problemas a médio e longo prazo de cimentação do solo, obstrução da porosidade, facilitando a erosão do fósforo e a eutrofização da água do solo.
Mesmo no sistema SD, as monoculturas seguem uma janela climática muito estreita, levam o manejo que não respeita as condições de solo, como a umidade, associado ao uso de maquinário pesado, causam a compactação das áreas de manejo. O cultivo extensivo em grandes áreas faz com que em alguns períodos, a terra fique descoberta ou com vegetação rala, favorecendo a erosão eólica. Sendo que, algumas cidades do Mato Grosso e Goiás, já sofrem com as tempestades de terra devido a erosão eólica, que carregam toneladas de terra, com fertilizantes e agrotóxicos.
Na visão da moderna da agricultura brasileira, a conservação do solo foi relegada a um plano inferior e até ignorada, especialmente na formação de técnicos e engenheiros, acreditando que não existe mais erosão. No entanto, basta uma chuva torrencial, causada pelas mudanças climáticas, para os cursos d’água se transformem em correntes de lodo.
Ana Maria Primavesi, que deixou um legado de vivência e saber, fixou muito seus estudos no solo, contribuindo para a interpretação do solo como sendo a base de tudo, a essencialidade do contexto. Isso resultou em uma interpretação equivocada, fazendo com que as novas práticas, transportassem as mesmas características químicas, físicas e biológicas dos solos do Rio Grande do Sul ao Maranhão, para produzir uma única planta.
É preciso que se abandone essa visão reducionista e se coloque o solo dentro um contexto de clima e ecologia geral. Se faz necessário também, um governo forte, que fortaleça também a extensão rural com técnicos qualificados e não seja conivente com um parlamento que tem uma “bancada ruralista” só para liberar novas fórmulas de agrotóxicos.
Por fim, as ações e práticas conservacionistas têm que ser discutidas com as comunidades, com estudantes e professores de todos os níveis. O solo é um bem da natureza, não renovável, que sofre uma degradação acelerada e está emprestado pelas próximas gerações.

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *