Por Andrei Luiz Lodéa
As mudanças climáticas podem ser encaradas como um dos principais desafios éticos e políticos que temos como humanidade. O principal responsável por essas mudanças somos nós, os seres humanos. Isso deriva a origem antropogênica dessa tragédia climática que está impactando e ameaçando a vida e a existência de animais, plantas, insetos e a nossa própria vida em um planeta de recursos e capitais naturais limitados e extremamente sensíveis. Perante essa ameaça que enfrentamos em uma escala global, Bruno Latour (2020) aponta para o fato político de que as elites que dirigem os países mais desenvolvidos, a tempos perceberam que os recursos naturais seriam exauridos e que não seria possível encontrar espaço no planeta terra para todos. Cria-se, com isso, a partir dos anos 1980 do século passado, uma operação de negação da existência das mudanças do clima (Latour, 2020, p. 09-10).
Preocupações sérias já vem sendo apontadas sobre as emissões de dióxido de carbono na atmosfera, a destruição das florestas, a poluição dos rios, mares e águas, a contaminação do ar e o aquecimento da temperatura, cenário perfeito para novas pandemias, endemias, doenças, fome, desaparecimento de espécies e, sobretudo, o sofrimento dos seres mais vulneráveis. Cientistas, matemáticos, filósofos, e ecologistas, desde a década de 1970, vem considerando e alertando que esse é um problema causado por nós humanos e que se trata de uma transformação e comprometimento da justiça global desde do clima até os direitos humanos. Se sabemos e conhecemos os impactos, continuar insistindo nessa tragédia é causarmos um “dano” deliberado contra a humanidade e a natureza. Aqui nos deparamos com uma questão fundamental de responsabilidade ética e política, que precisa ser urgentemente pensada, com uma drástica mudança em nossos hábitos de consumo e com ações governamentais rígidas e metas exequíveis.
Ainda dentro desse aspecto, o Painel Interamericano sobre Mudanças Climáticas (IPCC), aponta, desde 2007, sobre os principais riscos ocasionados pelas mudanças climáticas: desnutrição que afetam o desenvolvimento infantil, elevação de mortes, doenças e lesões devido a ondas de calor, inundações, tempestades, incêndios e secas, aumento da frequência de doenças cardiorrespiratórias devido a maiores concentrações de ozônio no nível do solo; distribuição espacial alterada de alguns vetores de doenças infecciosas por consequência da degradação das florestas. Dentro desse cenário desanimador, o aumento das desigualdades sociais e econômicas são apontadas como consequências das mudanças climáticas. Não é nenhuma novidade dizer e afirmar que as pessoas mais afetadas com inundações, secas e outras tragédias do clima são as pessoas que menos contribuem para a montagem desse cenário, os pobres e mais vulneráveis.
Considerando que já temos evidências e comprovações científicas sobre o avanço e os impactos das mudanças climáticas na vida planetária – terráquea, usando aqui uma expressão de Latour – três questões ou problemas devem ser amplamente debatido: a) assumir uma nova compreensão epistemológica de nossa relação com o planeta terra e os demais seres vivos; b) os impactos sociais e ecológicos à luz de nossa responsabilidade ética e moral; c) as ações políticas e econômicas que serão adotadas de forma intergovernamental para mitigar e reduzir os avanços destrutivos das ameaças do clima.
Tudo isso vai depender da forma como iremos tratar a natureza a partir deste momento: se a trataremos como um ser vivo de direitos e que queremos compartilhar nossas vidas juntos, ou como simplesmente um recurso utilizado para alimentar uma ideia de insustentável de capital humano, baseada em bens, riquezas e tecnologias concentradas nas não das elites globais, as verdadeiras responsáveis pela tragédia climática que estamos vivendo e que será duramente sofrível às futuras gerações. Para isso, cabe-nos a seguinte provocação: o que podemos fazer para enfrentar esse grande desafio imposto à humanidade e ao planeta?
Referências
LATOUR, B. Onde aterrar? Como se orientar politicamente no Antropoceno. Rio de Janeiro: Bazar do tempo, 2020.