Por
Flávia Biondo da Silva, educadora, produtora cultural e presidente do GESP
Como
podemos praticar o consumo consciente diante de realidades tão contrastantes,
como a fome e o consumo sem limites?
Ontem, 14
de outubro, foi o Dia Mundial da Alimentação, e hoje, 15 de outubro, celebramos
o Dia do Consumo Consciente. Essas datas nos convidam a refletir sobre a
desigualdade social que atinge milhões de pessoas, muitas das quais não têm
acesso sequer ao alimento básico. Como podemos esperar que essas pessoas
reconheçam, escolham e consumam alimentos de qualidade, quando o básico lhes
falta? Ao mesmo tempo, vemos o desperdício de alimentos em outros setores, onde
produtos são descartados antes de serem doados, muitas vezes por não
compensarem os custos de produção. Situações como essa são agravadas por
problemas sanitários e perdas na distribuição.
O Dia
Mundial da Alimentação (DMA), celebrado em 14 de outubro, inspira uma campanha
global da ONU que visa aumentar a conscientização sobre a fome e a pobreza no
mundo. Em 2024, o tema é “Direito aos alimentos para um futuro e uma vida
melhores”.
Já o Dia
do Consumo Consciente, comemorado em 15 de outubro, foi instituído pelo
Ministério do Meio Ambiente em 2009 com o objetivo de alertar a população sobre
os impactos socioambientais do consumo desenfreado.
O que é
Consumo Consciente?
O consumo
consciente é a prática de usar recursos de maneira responsável e sustentável,
considerando os impactos sociais, ambientais e econômicos das escolhas de
consumo. No entanto, como esperar que um trabalhador assalariado, que corre
para comprar pão e leite para sua família, tenha tempo ou conhecimento para
investigar a origem desses produtos, ou se eles foram produzidos de forma ética
e ecológica? Em muitos casos, a necessidade de alimentar os filhos com urgência
sobrepõe qualquer outra preocupação.
Por outro
lado, as pessoas com mais acesso são frequentemente bombardeadas por
propagandas sedutoras que as convencem de que estão consumindo produtos
“sustentáveis”, quando muitas vezes isso não passa de marketing
enganoso, além de consumirem sem consciência´responsável.
Vivemos
em uma sociedade neoliberal onde o lucro e a objetificação predominam,
moldando-nos para um consumo sem consciência, tornando-nos apenas mais uma peça
na engrenagem desse sistema.
Desafios
para os mais pobres diante do consumo consciente
Em um
sistema capitalista, os princípios do consumo consciente muitas vezes são
impossíveis de seguir para os mais pobres:
- Planejar as compras: Muitas famílias lutam para
equilibrar o salário, tentando garantir comida até o fim do mês. - Avaliar os impactos do consumo: O foco está em sobreviver,
e a qualidade dos produtos nem sempre pode ser uma prioridade. - Consumir apenas o necessário: Para muitos, o
“necessário” sequer é alcançado, e fome e frio são constantes. - Evitar produtos piratas ou
contrabandeados: Em
alguns casos, a única opção de acesso a bens é por meio de produtos
falsificados. - Contribuir para a melhoria
de produtos e serviços: Sem condições de discernir entre o que é
melhor ou pior, torna-se difícil colaborar com melhorias no mercado. - Divulgar o consumo
consciente:
Como divulgar ou praticar o consumo consciente quando a água tratada não
chega à sua casa ou quando ela é inacessível devido aos altos custos? - Refletir sobre seus valores: Como desenvolver valores
de consumo consciente quando se luta para ter acesso ao básico, enquanto
outros consomem como se tivéssemos três ou quatro planetas à disposição?
Consumo
Solidário: A Solidariedade no Consumo Consciente
Junto ao
consumo consciente, é necessário praticar o consumo solidário. O consumo
solidário é aquele que prioriza o coletivo em vez do individual, sendo
responsável ao consumir apenas o necessário, sem desperdício. Ele rejeita o
supérfluo, mesmo diante dos apelos incessantes da mídia.
Uma forma
de praticar esse tipo de consumo é através da Economia Solidária, que
busca promover a cooperação e o bem-estar coletivo. Um exemplo dessa prática é
o evento da FRESOL, que acontecerá de 7 a 10 de novembro no Bourbon
Shopping, promovendo a Economia Solidária e incentivando o consumo consciente e
solidário. Participe!!!
Referência
KANAN, Lilia
Aparecida. Consumo sustentável & economia solidária: alguns conceitos e
contribuições da Psicologia. Fractal, Rev. Psicol. 23 (3), Dez 2011,
https://doi.org/10.1590/S1984-02922011000300011
