Fotos: Dia dos Povos Indígenas em 2024 (Arquivo GESP)
Atualmente, Passo Fundo abriga quatro aldeias indígenas: Fág
Nor, Goj-Júr, Nãn Gá e Goj Kéry. São comunidades que seguem firmes no resgate e
reconstrução de suas histórias, identidades e origens.
Os povos indígenas, primeiros habitantes do Brasil, ainda
lutam pelo reconhecimento de sua existência. Muitas vezes invisibilizados no
cotidiano, são cidadãos que trabalham, estudam, sustentam suas famílias e
contribuem ativamente para o desenvolvimento do município.
Eles buscam respeito e direitos que nem sempre lhes são
garantidos. É hora de reconhecer a importância dos povos originários e
valorizar o legado que deixaram — e continuam deixando. Foram eles os primeiros
a cuidar da terra e da natureza, elementos essenciais para a vida e para tudo o
que o Brasil é hoje.
Texto a seguir escrito por Flávia Biondo da Silva, Presidente do GESP.
Povos
Indígenas do Rio Grande do Sul – Um Panorama Histórico e Cultural
O território que hoje corresponde ao estado do
Rio Grande do Sul foi, por milênios, lar de diversos povos indígenas que moldaram
suas paisagens, culturas e histórias muito antes da chegada dos colonizadores
europeus. A compreensão desses povos passa por múltiplas abordagens –
arqueológica, etnográfica, histórica e antropológica –, que revelam suas
profundas relações com a terra, os ciclos naturais e o sagrado.
Os
Primeiros Habitantes
Segundo Vilma Chiara (1968), vestígios
arqueológicos indicam a presença de grupos como os sambaquieiros no
litoral, agricultores ceramistas nas matas, e caçadores das áreas
abertas dos campos, que utilizavam boleadeiras e urnas funerárias. Esses
grupos viveram por milhares de anos em harmonia com os ecossistemas locais,
deixando marcas em sambaquis, cerritos e objetos cerâmicos.
Povos
Indígenas Históricos do RS
Hugo Ramirez (1975) apresenta três grupos
principais no século XVI:
- Guaranis (ou Tupi-Guaranis): eram
agricultores, navegadores e ceramistas, com forte religiosidade e práticas
como a antropofagia ritual. Foram fortemente afetados pelas reduções
jesuíticas, deixando um legado profundo na cultura e na língua da região. - Kaingangs (antigos Guaianás ou Coroados): ocupavam o planalto e florestas, com uma cultura marcada pela
oralidade, relações comunitárias e resistência à colonização. Ainda estão
presentes no RS. - Charruas e Minuanos:
povos cavaleiros e guerreiros do sul do estado. Utilizavam boleadeiras,
não cultivavam a terra e desenvolveram práticas funerárias rituais
intensas.
Além desses, havia grupos menores como Guenóa,
Carijós, Tapes, Arachane e Caagua, citados como habitantes de regiões
específicas e com culturas próprias.
Colonização
e Impacto
As três obras relatam como a colonização foi
devastadora para os povos indígenas. Chiara (1968) aponta os efeitos da guerra,
escravidão e catequese. Ramirez (1975) detalha o processo de expropriação de
terras, a imposição de culturas externas e o declínio da população indígena.
Marcon (1994) aprofunda a crítica, mostrando como a lógica colonial e a
racionalidade capitalista provocaram rupturas culturais irreversíveis,
marginalizando os Kaingang e impondo formas de vida alheias à sua tradição.
A Terra:
Mãe e Memória
Para os indígenas, especialmente os Kaingang,
a terra é entendida como mãe – fonte de alimento, cura e espiritualidade
(Marcon, 1994). A visão indígena contrasta fortemente com a perspectiva
colonizadora, que vê a terra como bem econômico. A luta pela retomada das
terras e pela valorização da identidade cultural está no centro da resistência
Kaingang.
Religião e
Rituais
A religiosidade indígena foi frequentemente
mal interpretada por missionários e estudiosos do século XIX, como mostra
Marcon (1994). O sagrado permeia os ciclos da vida – nascimento, iniciação,
morte –, mas muitos rituais foram silenciados ou esquecidos com o avanço da
colonização. Ainda assim, formas de religiosidade persistem, mesclando
elementos tradicionais e influências cristãs.
O Indígena
nos Livros e na Sociedade
O capítulo final da obra de Marcon (1994)
denuncia a representação estereotipada e genérica dos indígenas nos livros
didáticos. Ramirez (1975) também critica a invisibilidade dos povos originários
na história oficial. Ambas as obras reforçam a importância de revisitar essas
narrativas com olhar crítico, plural e respeitoso.
Identidade
em Reconstrução
Apesar das perdas, os indígenas –
especialmente os Kaingang e Guarani – seguem resistindo e recriando sua
cultura. Como argumenta Marcon (1994), a identidade indígena não é estática,
mas dinâmica, moldada por processos históricos e marcada pela tensão entre
tradição e mudança. Reconhecer essa complexidade é essencial para qualquer
abordagem contemporânea sobre os povos indígenas no RS.
Conclusão
A leitura das três obras revela um fio comum:
a urgência de reconhecer os povos indígenas não como passado extinto, mas como presentes
vivos, com cultura, direitos e saberes legítimos. Chiara (1968) documenta
as raízes mais antigas. Ramirez (1975) denuncia o apagamento histórico. Marcon
(1994) propõe uma leitura crítica, política e humanista da realidade indígena.
Referências
Bibliográficas
CHIARA, Vilma. Índios do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Secretaria de
Educação e Cultura do Estado do Rio Grande do Sul, 1968.
RAMIREZ, Hugo (Org.). O Índio no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Comissão Executiva
do Biênio da Colonização e Imigração, 1975.
MARCON,
Telmo (Coord.). História e Cultura Kaingang no Sul do Brasil.
Passo Fundo: Universidade de Passo Fundo; Instituto de Teologia e Pastoral,
1994. (Coleção Cultura e Religiosidade Popular, n. 3)

