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 A mensagem ecológica de George Harrison, o mais espiritual membro dos Beatles, a maior e mais revolucionária banda de rock de todos os tempos

George Harrison nasceu no dia 24 de fevereiro de 1943, em Liverpool, na Inglaterra. O pai, Harold, era motorista de ônibus, e sua mãe, Louise, dona de casa. Ele comprou sua primeira guitarra aos 12 anos e conheceu Paul McCartney no ônibus escolar. Em 1958, Paul o apresenta a John Lennon, que aprovou sua entrada na banda, chamada então de Quarrymen, que depois se tornaria os Beatles.

Excelente guitarrista, dono de um estilo preciso, inconfundível e único, George era o mais novo da banda e considerado o “Beatle Quieto”. Quieto? Foi o primeiro membro do conjunto a fazer dois discos solo, enquanto os Beatles existiam: “Wonderwall Music (1968) e “Eletronic Sound” (1969). Primeiro artista do ocidente a utilizar a cítara indiana numa música de rock “Nowergian Wood” (1966). Na canção “Taxman” (Cobrador de impostos), que abre o importante lado “A” do disco Revolver, de 1966, o jovem George, de apenas 23 anos, faz uma crítica veemente e pesada aos altos impostos de renda progressivos, estipulados pelo governo trabalhista do primeiro ministro Harold Wilson. Citou-o nominalmente na música, juntamente com o líder do partido Conservador, Edward Heath.

Também foi o primeiro músico do gênero a lançar um álbum triplo (vinil), quando iniciou sua carreira solo. O disco “All Things Must Pass”, de 1970 – 50 anos depois – ainda é considerado o melhor álbum solo de um ex-beatle e um dos mais importantes da história do rock.

Pioneiro, ele foi o primeiro artista de rock a fazer um show humanitário, em 1971, com o Concerto para Bangadesh, em Nova York, para arrecadar fundos para os refugiados da então recém criada nação indiana. Nessa época ele já tinha conhecido a religião hindu e se convertido à tradição Hare Krishna.

A partir de 1966, suas canções começaram a ocupar lugar de destaque nos álbuns da banda culminando com “Something” e “Here Comes The Sun”, presentes no “Abbey Road”, último disco gravado pelos Beatles. A música “Something” é a segunda canção mais regravada dos Beatles em todo mundo. Frank Sinatra a considerava a “melhor canção de amor que alguém já escreveu” nas últimas cinco décadas.

Como todo bom inglês nascido num país onde, culturalmente, a jardinagem é o hobby preferido pela sua população, George Harrison costumava ficar horas em sua propriedade cuidando de flores. A paixão era tanta que ele dedicou “I Me Mine”. sua autobiografia, “à todos os jardineiros do mundo”.

Em 2008, ele recebeu uma homenagem na famosa exposição do Chelsea Flower Show, na Inglaterra, onde o ex-beatle ia todos os anos, com um jardim em seu nome “From Life to Life”, a Garden for George” , com seções florais temáticas representando quatro estágios da sua vida: o “Liverpool Garden”, o “Psychedelic 60’s Garden”, o “Contemplative Garden” e o “After Live Garden”.

Harrison foi um jardineiro dedicado. Primeiro em Kinfauls, a residência que comprou em Surrey, em 1964, e depois, na mansão vitoriana Friar Park, salvando-a da demolição, em 1970. Ele limpou a maioria do mato da propriedade de 145 mil m2 e, junto com dez outros jardineiros, implantou seu projeto de paisagismo, com as plantas que mais amava: jasmins, samambaias, gramíneas, hortênsias e magnólias.

O amor e o cuidado eram tão grandes que seu filho Dhani, quando criança, pensou que o pai fosse realmente um jardineiro profissional. Se a Covid-19 já estiver vencida, este reconhecimento acontecerá ano que vem, quando a Prefeitura de Liverpool irá inaugurar um memorial em sua homenagem , que se chamará “ George Harrison Woodland Walk”, nos jardins do parque Allerton Towers, que fica perto de onde o músico nasceu. O memorial reunirá uma série de obras artísticas inspiradas na carreira e vida do ex-beatle.

Harrison morreu no dia 29 de novembro de 2001, depois de uma longa batalha contra um câncer de pulmão. Seu corpo foi cremado e suas cinzas jogadas ao longo do Rio Ganges, na Índia. Tendo referência o livro “Beatles Anthology”, de Cosac & Naify, de 2001, “Heres Comes the Sun” de Joshua Greene, a autobiografia “I Me Mine e o site www.georgeharrison.com, a Ecológico selecionou alguns de seus pensamentos e declarações, onde ele fala de Deus, meio ambiente e do seu paisagismo interior. Confira!

Meio Ambiente

“Eu me lembro de olhar pela janela do avião , e o Alasca era incrível: montanhas, florestas e pinheiros, lagos e rios maravilhosos. À medida que a gente ia baixando e chegando mais perto, os lagos e árvores iam rareando um pouco. Mas, quando aterrissamos , de repente havia uma enorme bagunça de tratores que o homem tinha feito no meio daquela beleza rara” Eu pensei, ‘Ah, aqui estamos nós de novo!’ A humanidade fica nos dando coisas de segunda até que, no final, o planeta inteiro fica coberto delas.”

“ Existe uma parte de mim que está mais triste vendo o estado do mundo. Ele está tão ferrado. É terrível. E ficará cada vez pior. Mais concreto em todo lugar, mais poluição, mais radiação. Não sobrarão selvas, nem ar puro. Estão derrubando as florestas, poluindo os oceanos. Sou pessimista quanto ao futuro do planeta. Esses figurões não percebem que para qualquer coisa que eles façam, existe uma reação. Você tem que pagar. Isto é karma

“Para mim, o cuidado que tenho com o planeta provavelmente começou em outra vida. Quando eu era garoto, andava sozinho e me sentia em contato com a natureza, com o céu, as árvores, as plantas e os insetos.”

Beatles

“Sentia-me como um observador dos Beatles, mas era parte deles. Eu acredito que John e Paul foram as estrelas do grupo.”

“Sou o Beatle classe econômica.”

“Os Beatles não retornarão, enquanto John Lennon permanecer morto.”

“Foi um caso de amor muito unilateral. As pessoas davam seu dinheiro e seus gritos. Mas os Beatles davam seus sistemas nervosos, que é uma coisa muito mais difícil de dar. Em certo sentido, ajudamos a acalmar os lugares para onde íamos, ou concentramos a energia de uma forma positiva, mas quanto a nós mesmos, estávamos no olho do furacão.Todos viam o efeito dos Beatles, mas ninguém de fato se preocupou alguma vez conosco como indivíduos, ou pensou: ‘Gostaria de saber como os rapazes estão lidando com isto tudo’. As pessoas sempre nos chamavam de os rapazes ou os Beatles, quase sem conseguir perceber que os Beatles eram quatro pessoas, quatro indivíduos.”

“O carma é: o que você semeia, você colhe. Como John disse em ‘All You Need Is Love’: ‘Não há lugar em que você possa estar que não o lugar onde você está fadado a estar’, porque você mesmo lavrou seu próprio destino por suas ações anteriores. Sempre tive a impressão de que alguma coisa iria acontecer, desde quando estava na escola – motivo pelo qual não me envolvia demais com o trabalho escolar. Não significava o fim da minha vida se eu não conseguisse nenhum diploma.”

“Gostaria de pensar que os velhos fãs dos Beatles cresceram e todos têm filhos e são mais responsáveis, mas que ainda têm espaço para nós em seus corações.”

“Os Beatles de algum modo atingiram mais pessoas, mais nacionalidade, mais países do que outras bandas conseguiriam atingir.”

“Se você ouvir a música que hoje é tocada, tudo o que é bom é roubado dos Beatles. A maioria dos solos e frases musicais ou ideias ou títulos. Os Beatles têm sido saqueados há 30 anos.”

“Acho que demos esperança aos fãs dos Beatles, Demos a eles um sentimento positivo de que havia um dia de sol adiante e que havia um tempo bom a ser mantido e que você é sua própria pessoa e que o governo não é dono de você. Havia esse tipo de mensagens em muitas de nossas canções.”

“Tudo que queríamos fazer é estar em uma banda de rock, mas, como disse Shakespeare, o mundo inteiro é um palco e as pessoas são apenas atores. Ser os Beatles era como um traje que vestimos por algum tempo, mas que não era realmente nós. Nenhum de nós é. Nossa verdadeira natureza está tentando restabelecer o que está dentro.”

John Lennon

“John e eu, em uma base um a um, tínhamos uma relação muito diferente da que eu imagino que ele tinha com Ringo ou Paul. Ele via que não estamos apenas no mundo material; ele via além da morte, que esta vida é apenas uma pequena peça que está rolando. E ele entendia isto. Você não diria alguma coisa como Gauguin negligenciou sua família em favor da arte, ou que morrer por sua pintura é estúpido – por que se incomodar? – a menos que você tenha a impressão de que há alguma coisa maior na vida. A pintura de um pôr-do-sol não pode ser comparada ao pôr-do-sol real. A arte (como a música) é uma tentativa insignificante de reproduzir o que Deus faz a todo o momento. Depois de passar por aquele período do LSD com John, desde a primeira vez que o tomamos, eu o compreendi e acredito que nossos pensamentos ficaram muito mais sintonizados um com o outro.”

Deus

“Ninguém que eu conheça nas religiões cristãs parece ter um entendimento profundo da ciência de Deus para traduzi-la em termos humanos. Os líderes da igreja transmitem uma espécie de nonsense porque eles mesmos não a entendem. Por isso, cegam você com a ignorância, como faz um governo, como se o poder da Igreja fosse suficiente para você não questionar nada do que ela diz. É como dizer: Você não sabe nada sobre Cristo e Deus, porque os donos da franquia somos nós.”

“Eu havia lido o suficiente dos Vivekenandas e Yoganandas para entender como ver Deus: com o sistema iogue de transcender os estados relativos da consciência (vigília, sono, sonho) para chegar ao nível mais sutil da consciência pura. É nesse nível que o indivíduo experimenta a percepção pura, a consciência pura, a fonte do ser.”

“Acredito absolutamente no poder da oração. Mas ele é como o amor: as pessoas dizem ‘eu te amo’, mas a questão é ‘quão profundo é o seu amor?’. Maharishi (guru dos Beatles) costumava dizer que se você tiver um arco e uma flecha e conseguir puxar o arco apenas um pouco para trás, a flecha não irá longe. Mas se você puxar o arco bem para trás, você poderá obter o alcance máximo da flecha. Com a oração, certas pessoas são tão poderosas que suas preces funcionam, ao passo que outras podem ter a intenção, mas não a habilidade.”

“0 nível transcendente da consciência é muito importante, fundamental para alcançarmos esse nível. Já o mantra é como uma receita médica. Se tiver a palavra certa em uma receita, você tomará o remédio certo.”

Vida interior

“Nós passamos pela vida sendo empurrados por nossos sentidos e nosso ego, na busca de novas experiências; porque sem experiência não obtemos conhecimento, e sem conhecimento não obtemos a libertação. Mas, ao longo do caminho, ficamos emaranhados na ignorância e nas trevas por causa do nosso ego e de nossa associação com a energia material. Assim, embora sejamos feitos de Deus, não podemos manifestar Deus em razão de toda a poluição que se junta no meio do caminho; e é uma batalha épica a de eliminar tudo isso de seu sistema.”

“Uma abelha visita uma flor para colher pólen e depois tenta encontrar outra que contenha mais. A natureza básica da abelha é buscar mais néctar, tal como é a natureza da alma procurar uma experiência melhor. Quando você já passou por todas essas experiências – conheceu pessoas famosas, ganhou algum dinheiro, viajou pelo mundo e obteve toda a aclamação – você ainda pensa: “Isso é tudo?”. Algumas pessoas podem ficar satisfeitas com isso, mas eu não estava e ainda não estou.”

“Estar nos Beatles ajudou a acelerar o processo de consciência de Deus, mas também o impediu, já que havia mais impressões e mais embaraços de que se livrar. Toda experiência e pensamento são registrados em nosso arquivo interior. A meditação é apenas um meio para um fim. Você a pratica para liberar toda a barafunda de seu sistema, para que quando ela se for você se torne aquilo que afinal você é. Esta é a graça da piada: nós já somos o que quer que seja que gostaríamos de ser. Tudo o que temos de fazer é desfazê-lo.”

“Todo o resto pode esperar, mas não a busca de Deus, nem o amor ao próximo.”

Foto: Divulgação

Memória Iluminada
Edição 131 – Publicado em: 30/12/2020

http://revistaecologico.com.br/revista/edicoes-anteriores/edicao-131/o-jardineiro-beatle/

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