Voltamos aos tempos das lutas no campo em que, acuados pelo poder do
latifúndio, trabalhadores rurais, sem terras e posseiros eram mortos às
dezenas
latifúndio, trabalhadores rurais, sem terras e posseiros eram mortos às
dezenas
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| Caminhões com madeira extraída de maneira irregular circulam livremente pelo estado, em um sinal do tamanho do problema |
A Comissão Pastoral da Terra (CPT) registrou
em 2015, ainda em números parciais, um total de 50 assassinatos em
conflitos no campo. Desses, 20 foram em Rondônia e 19 no Pará**. Foi o
maior número de assassinatos já registrado pela CPT em Rondônia, desde
1985, e o maior número registrado no Brasil nos últimos 12 anos.
em 2015, ainda em números parciais, um total de 50 assassinatos em
conflitos no campo. Desses, 20 foram em Rondônia e 19 no Pará**. Foi o
maior número de assassinatos já registrado pela CPT em Rondônia, desde
1985, e o maior número registrado no Brasil nos últimos 12 anos.
O Vale do Jamari é a região de Rondônia na qual aconteceram 14 dos 20
assassinatos. Marcado por grandes áreas griladas, presença de
madeireiros, ações de pistoleiros, e a ausência e/ou conivência do
Estado, o vale tornou-se um barril de pólvora prestes a explodir. Em
2016 já foram 4 assassinatos na região.
assassinatos. Marcado por grandes áreas griladas, presença de
madeireiros, ações de pistoleiros, e a ausência e/ou conivência do
Estado, o vale tornou-se um barril de pólvora prestes a explodir. Em
2016 já foram 4 assassinatos na região.
Diferentemente de outras regiões no Brasil, para se entender os
conflitos por terra no estado é impossível analisá-los de forma
maniqueísta. Impressões de certo e errado, bem e mal, no sentido literal
dos termos não cabem aqui.
conflitos por terra no estado é impossível analisá-los de forma
maniqueísta. Impressões de certo e errado, bem e mal, no sentido literal
dos termos não cabem aqui.
Inúmeras categorias e interesses permeiam a busca pela terra na
região. Trabalhadores rurais sem terra seguem, muitas vezes, seu
propósito, organizados ou não em movimentos e associações, de buscar a
terra para produzir alimentos e nela viver.
região. Trabalhadores rurais sem terra seguem, muitas vezes, seu
propósito, organizados ou não em movimentos e associações, de buscar a
terra para produzir alimentos e nela viver.
Segundo informações da CPT Rondônia, há atualmente cerca de 80
acampamentos no estado, e destes somente 26 seriam ligados a movimentos
organizados. O restante são grupos independentes em busca de seu pedaço
de chão. Comunidades tradicionais lutam pela garantia de seus
territórios, pela produção sustentável e pela manutenção da floresta em
pé.
acampamentos no estado, e destes somente 26 seriam ligados a movimentos
organizados. O restante são grupos independentes em busca de seu pedaço
de chão. Comunidades tradicionais lutam pela garantia de seus
territórios, pela produção sustentável e pela manutenção da floresta em
pé.
Em contrapartida, madeireiros agem diante das vistas grossas dos
órgãos fiscalizadores do governo. É possível ver caminhões circulando
pelas rodovias do estado, com madeira sem certificação, mesmo à luz do
dia. Durante a noite, segundo relatos de agentes da Secretaria de Estado
do Desenvolvimento Ambiental (Sedam), pode-se contar 40 ou 50 caminhões
num único trecho de estrada próximo ao município de Machadinho D’Oeste.
órgãos fiscalizadores do governo. É possível ver caminhões circulando
pelas rodovias do estado, com madeira sem certificação, mesmo à luz do
dia. Durante a noite, segundo relatos de agentes da Secretaria de Estado
do Desenvolvimento Ambiental (Sedam), pode-se contar 40 ou 50 caminhões
num único trecho de estrada próximo ao município de Machadinho D’Oeste.
Em Cujubim, alguns madeireiros até possuem certificados para
exploração de madeira, dentro do Programa de Manejo Florestal,
autorizado pelo Ibama, mas lá já não há mais madeira para explorar. Com
isso, eles retiram madeira de outras regiões, “certificando-as” com os
documentos que possuem. Parte dela vem de Unidades de Conservação, como a
Reserva Extrativista Rio Preto Jacundá, em Machadinho D’Oeste.
exploração de madeira, dentro do Programa de Manejo Florestal,
autorizado pelo Ibama, mas lá já não há mais madeira para explorar. Com
isso, eles retiram madeira de outras regiões, “certificando-as” com os
documentos que possuem. Parte dela vem de Unidades de Conservação, como a
Reserva Extrativista Rio Preto Jacundá, em Machadinho D’Oeste.
Em conversa com dois seringueiros que pediram anonimato por temer
retaliações (ambos são ameaçados de morte), eles revelaram que a partir
de 2005 surgiram na reserva mais de 100 frentes de invasão para retirar
madeira.
retaliações (ambos são ameaçados de morte), eles revelaram que a partir
de 2005 surgiram na reserva mais de 100 frentes de invasão para retirar
madeira.
Das 21 Unidades de Conservação Estaduais de Rondônia (UC’s), 16 ficam
na região de Machadinho D’Oeste. Conforme informações dos seringueiros,
de 2005 a 2014 teriam ocorrido 16 assassinatos nas UC’s, alguns com
tortura e requintes de crueldade, informação essa que a CPT está
buscando confirmar.
na região de Machadinho D’Oeste. Conforme informações dos seringueiros,
de 2005 a 2014 teriam ocorrido 16 assassinatos nas UC’s, alguns com
tortura e requintes de crueldade, informação essa que a CPT está
buscando confirmar.
Em um dos casos, na busca por saber quem fazia as denúncias para a
Sedam fiscalizar, um dos seringueiros teve mãos e língua cortadas, o
tronco decepado na altura da cintura e as pernas queimadas.
Sedam fiscalizar, um dos seringueiros teve mãos e língua cortadas, o
tronco decepado na altura da cintura e as pernas queimadas.
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| O mapa das mortes em Rondônia |
Ainda conforme estes relatos, exploradores de madeira incentivam
grupos que se auto-denominam “sem terra” para “ocuparem” lotes na
reserva, com a intenção de gerar conflito com os ocupantes tradicionais.
Eles demarcam os lotes, vendem a madeira e em seguida comercializam os
lotes desmatados para terceiros. “Dos 95 mil hectares da reserva Rio
Preto Jacundá, pelo menos em 80 mil hectares a madeira já foi retirada”,
denunciaram.
grupos que se auto-denominam “sem terra” para “ocuparem” lotes na
reserva, com a intenção de gerar conflito com os ocupantes tradicionais.
Eles demarcam os lotes, vendem a madeira e em seguida comercializam os
lotes desmatados para terceiros. “Dos 95 mil hectares da reserva Rio
Preto Jacundá, pelo menos em 80 mil hectares a madeira já foi retirada”,
denunciaram.
Cientes da situação, as autoridades praticamente nada fazem. Há atualmente nove lideranças ameaçadas de morte na região.
O campo como perspectiva e a morte prematura como certeza
Estar em Cujubim, assim como em outros municípios da imensa Amazônia,
é ter a certeza de que muitos brasileiros e brasileiras foram renegados
e renegadas pelos poderes políticos e pelo restante da sociedade.
é ter a certeza de que muitos brasileiros e brasileiras foram renegados
e renegadas pelos poderes políticos e pelo restante da sociedade.
Cheguei à região logo após um conflito, na fazenda Tucumã, em que
cinco jovens sem terra foram atacados por pistoleiros. O fato ocorreu na
última semana de janeiro. Os cinco haviam entrado na área ocupada fazia
apenas 40 dias, após receberem a informação de que a terra seria
desapropriada pelo Incra, por se tratar de área pública, e de que os
lotes seriam distribuídos aos ocupantes.
cinco jovens sem terra foram atacados por pistoleiros. O fato ocorreu na
última semana de janeiro. Os cinco haviam entrado na área ocupada fazia
apenas 40 dias, após receberem a informação de que a terra seria
desapropriada pelo Incra, por se tratar de área pública, e de que os
lotes seriam distribuídos aos ocupantes.
Parecia ser uma boa oportunidade a quem na região não vê muita expectativa de educação ou formação profissional.
O pretenso proprietário, conhecido como “Japonês”, conseguiu a
reintegração de posse ainda em janeiro. Ele e a polícia acordaram com os
ocupantes que eles poderiam retornar à ocupação para retirar seus
pertences. Os jovens retornaram, então, no dia 31 e foram surpreendidos
pelos pistoleiros. Três conseguiram fugir. Dois estão desparecidos e um
corpo carbonizado e não identificado até o momento, foi encontrado no
carro dos jovens.
reintegração de posse ainda em janeiro. Ele e a polícia acordaram com os
ocupantes que eles poderiam retornar à ocupação para retirar seus
pertences. Os jovens retornaram, então, no dia 31 e foram surpreendidos
pelos pistoleiros. Três conseguiram fugir. Dois estão desparecidos e um
corpo carbonizado e não identificado até o momento, foi encontrado no
carro dos jovens.
Em 3 de fevereiro, uma patrulha policial na região encontrou quatro
homens fortemente armados em uma caminhonete, que seriam pistoleiros na
fazenda Tucumã. Os homens foram detidos, mas um deles, ex-policial
militar, conseguiu fugir da viatura, onde estavam três policiais, e na
fuga deixou cair uma espingarda.
homens fortemente armados em uma caminhonete, que seriam pistoleiros na
fazenda Tucumã. Os homens foram detidos, mas um deles, ex-policial
militar, conseguiu fugir da viatura, onde estavam três policiais, e na
fuga deixou cair uma espingarda.
Grilagem de terras: a jovem senhora da Amazônia
“Grilagem de terras” é um termo impossível de ser descolado da ideia
de colonização e ocupação da Amazônia. Durante anos a fio, áreas
públicas foram indevidamente apropriadas pelo capital, nacional ou
internacional, com interesses diversos. Somando-se a isso, grandes
extensões de terras públicas foram divididas e transferidas para os
interessados, através de Contratos de Alienação de Terras Públicas
(CATPs).
de colonização e ocupação da Amazônia. Durante anos a fio, áreas
públicas foram indevidamente apropriadas pelo capital, nacional ou
internacional, com interesses diversos. Somando-se a isso, grandes
extensões de terras públicas foram divididas e transferidas para os
interessados, através de Contratos de Alienação de Terras Públicas
(CATPs).
Esses poderiam, com isso, fazer o uso da terra e, se cumprissem as
condicionantes previstas no contrato, adquiririam o título definitivo de
tais áreas. O Incra deveria fiscalizar o cumprimento dessas
condicionantes. De meados dos anos 1970 ao início de 1980,
desenvolveu-se em Rondônia a licitação dessas terras públicas.
condicionantes previstas no contrato, adquiririam o título definitivo de
tais áreas. O Incra deveria fiscalizar o cumprimento dessas
condicionantes. De meados dos anos 1970 ao início de 1980,
desenvolveu-se em Rondônia a licitação dessas terras públicas.
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| O mapa das áreas invadidas, segundo a Associação Kanindé |
A informação do professor de Direito Agrário Hélio Roberto Novoa é de que foram licitados no estado algo em torno a 1,5 milhões de hectares a 1.100 licitantes (em
PDF). Até os dias de hoje, o pano de fundo dos conflitos de terra na
região está costurado à grilagem de terras e às CATPs, cuja fiscalização
inoperante gerou um mercado irregular de terras na região.
PDF). Até os dias de hoje, o pano de fundo dos conflitos de terra na
região está costurado à grilagem de terras e às CATPs, cuja fiscalização
inoperante gerou um mercado irregular de terras na região.
Alguns vendem a área após um tempo, enquanto outros constroem seu
latifúndio, acumulando CATPs em nome de “laranjas” ou de parentes.
latifúndio, acumulando CATPs em nome de “laranjas” ou de parentes.
Nenhum território escapa em Rondônia
Nem os territórios indígenas escapam à sanha dos invasores em
Rondônia. Segundo denúncias, a Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau, à qual se
sobrepôs o Parque Nacional de Pacaás Novos, e que abrange ao todo partes
de nove municípios da região, está sendo invadida. Lotes são demarcados
e revendidos. Além disso, os invasores estariam, também, extraindo ouro
da região.
Rondônia. Segundo denúncias, a Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau, à qual se
sobrepôs o Parque Nacional de Pacaás Novos, e que abrange ao todo partes
de nove municípios da região, está sendo invadida. Lotes são demarcados
e revendidos. Além disso, os invasores estariam, também, extraindo ouro
da região.
Segundo a Associação de Defesa Etnoambiental de Rondônia, Kanindé,
pelo menos 47 lotes estão sendo comercializados na área e os
responsáveis por trazer esses invasores seriam empresários e fazendeiros
locais. Os Uru-Eu-Wau-Wau e a própria Kanindé já alertaram os órgãos
competentes sobre a invasão. O ICMBio esteve no local e, segundo a
Associação, alegou não ter encontrado vestígios dos invasores.
pelo menos 47 lotes estão sendo comercializados na área e os
responsáveis por trazer esses invasores seriam empresários e fazendeiros
locais. Os Uru-Eu-Wau-Wau e a própria Kanindé já alertaram os órgãos
competentes sobre a invasão. O ICMBio esteve no local e, segundo a
Associação, alegou não ter encontrado vestígios dos invasores.
Entretanto, os relatos que ouvi descreveram como é visível, a partir
de um simples passeio de carro pela região, a entrada e ação desses
invasores na área. A Kanindé afirma, ainda, que fará uma nova denúncia
no Ministério Público Federal sobre o caso.
de um simples passeio de carro pela região, a entrada e ação desses
invasores na área. A Kanindé afirma, ainda, que fará uma nova denúncia
no Ministério Público Federal sobre o caso.
Estão tentando fechar os olhos do mundo para a região
Durante os dias que estive em Rondônia, dois profissionais da
imprensa internacional estavam no estado trabalhando em pautas para as
revistas Americas Quarterly e US News & World Report sobre a onda de violência no campo na Amazônia.
imprensa internacional estavam no estado trabalhando em pautas para as
revistas Americas Quarterly e US News & World Report sobre a onda de violência no campo na Amazônia.
No dia 9 de fevereiro, eles planejavam visitar Ariquemes, a porta de
entrada para o Vale do Jamari, onde entrevistariam o chefe da
Polícia Militar do Estado. Mas, antes de a entrevista acontecer, um
porta-voz do governo de Rondônia ligou para informar que a polícia tinha
sido instruída a não cooperar, porque um relatório internacional sobre o
assunto teria “repercussões terríveis para o Estado”.
entrada para o Vale do Jamari, onde entrevistariam o chefe da
Polícia Militar do Estado. Mas, antes de a entrevista acontecer, um
porta-voz do governo de Rondônia ligou para informar que a polícia tinha
sido instruída a não cooperar, porque um relatório internacional sobre o
assunto teria “repercussões terríveis para o Estado”.
No dia seguinte, já em Porto Velho, ao deixar estacionado por alguns
instantes o carro que utilizavam, este teve os vidros quebrados e seus
equipamentos, cartões de memória, arquivos de vídeo e notebooks,
furtados. A mala do fotógrafo, contendo roupas, passaporte e outros
itens e o GPS do veículo não foram levados.
instantes o carro que utilizavam, este teve os vidros quebrados e seus
equipamentos, cartões de memória, arquivos de vídeo e notebooks,
furtados. A mala do fotógrafo, contendo roupas, passaporte e outros
itens e o GPS do veículo não foram levados.
A atmosfera desse estranho furto levou a Associação de
Correspondentes da Imprensa Estrangeira (ACIE) a divulgar uma nota
manifestando sua preocupação pelo fato da polícia local ter sido
instruída a não cooperar com a equipe.
Correspondentes da Imprensa Estrangeira (ACIE) a divulgar uma nota
manifestando sua preocupação pelo fato da polícia local ter sido
instruída a não cooperar com a equipe.
Preocupação essa que, em suas palavras, “só pode ser reforçada
pelas recentes declarações públicas, tanto do chefe da polícia e do
governador, que têm chamado os trabalhadores sem terra de ‘terroristas’ e
‘criminosos’, pessoas que devem ser ‘colocadas em seu lugar’ e pelo
fato que esta ameaça foi estendida ‘àqueles que os apoiam’”.
pelas recentes declarações públicas, tanto do chefe da polícia e do
governador, que têm chamado os trabalhadores sem terra de ‘terroristas’ e
‘criminosos’, pessoas que devem ser ‘colocadas em seu lugar’ e pelo
fato que esta ameaça foi estendida ‘àqueles que os apoiam’”.
O governo do estado mostra claramente o lado que assumiu nessa
disputa. Os sem terra e os extrativistas tentam se defender da forma que
lhes cabe. Os fazendeiros se articulam em associações de produtores, em
que reúnem a verba necessária para armar trincheiras nas terras com
seus pistoleiros, ou guaxebas, como são conhecidos em Rondônia.
disputa. Os sem terra e os extrativistas tentam se defender da forma que
lhes cabe. Os fazendeiros se articulam em associações de produtores, em
que reúnem a verba necessária para armar trincheiras nas terras com
seus pistoleiros, ou guaxebas, como são conhecidos em Rondônia.
Uma faísca não tardará em explodir esse barril de pólvora.
*Cristiane Passos é jornalista, antropóloga e assessora de
comunicação da Comissão Pastoral da Terra (CPT) – Secretaria Nacional.
comunicação da Comissão Pastoral da Terra (CPT) – Secretaria Nacional.
**O Ministério do Desenvolvimento Agrário contesta o
levantamento da CPT e fala em 19 mortes neste período. De acordo com a
CPT, o MDA e a pastoral usam metodologias diferentes, o que explica a
diferença entre os dados
levantamento da CPT e fala em 19 mortes neste período. De acordo com a
CPT, o MDA e a pastoral usam metodologias diferentes, o que explica a
diferença entre os dados
Via: Carta Capital

