Empresas de energia precisam mudar padrões e cumprir metas ambientais.
São muitos os exemplos de contaminações do ar e da água no país.
Do New York Times
A transição no comando da China
aconteceu recentemente com um pano de fundo sinistro. Mais de 13 mil
porcos mortos foram encontrados flutuando em um rio que fornece água
potável para Xangai. Uma cerração parecida com fumaça vulcânica escondeu
a capital, Pequim, causando tosse convulsiva e obscurecendo o retrato
de Mao Tsé-Tung no portão da Cidade Proibida.
As tragédias ambientais chinesas são tão graves, principalmente o ar
venenoso, que as principais autoridades foram forçadas a reconhecê-las
abertamente. Porta-voz do Congresso Nacional do Povo, Fu Ying disse
procurar sinais de névoa seca todas as manhãs antes de abrir as cortinas
de casa, além de usar uma máscara no rosto quando a situação estava
ruim e também colocar uma na filha.
Ao afirmar que a poluição atmosférica o deixava “muito perturbado”, Li
Keqiang, o novo primeiro-ministro, prometeu “demonstrar uma resolução
ainda maior e fazer esforços mais vigorosos” para limpar o ar. O que os
líderes não comentam é que as brigas com a burocracia governamental são
um dos maiores obstáculos à aprovação de políticas ambientais mais
fortes.
Enquanto algumas autoridades pedem restrições mais severas a poluentes,
empresas estatais – principalmente as de petróleo e energia – vêm
colocando os lucros à frente da saúde ao trabalhar para contornar as
novas regras, segundo dados governamentais e entrevistas com pessoas
envolvidas na negociação das políticas.
Por exemplo, embora os caminhões e ônibus que cruzam a China sejam
muito piores para o ambiente do que quaisquer outros veículos, as
petroleiras demoraram anos para melhorar a qualidade do diesel queimado
por eles. Em resultado, os níveis de enxofre no diesel chinês são pelo
menos 23 vezes maiores do que nos Estados Unidos.
Quanto às empresas de energia, as três maiores do país são violadoras
constantes das restrições governamentais sobre emissões de usinas
movidas a carvão; centrais elétricas fora da lei são encontradas na
China inteira, da Mongólia Interior à metrópole de Chongqing, na porção
sudoeste da nação.
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| Parte de prédio é vista em meio à névoa de poluição que encobre Pequim. A capital chinesa advertiu que seus moradores que devem permanecer em casa após o anúncio de medidas de emergência para combater uma pesada neblina de poluição. (Foto: Jason Lee/Reuters) |
Conflito de interesses
As estatais têm papel crítico na criação de políticas sobre padrões
ambientais. Por exemplo, os comitês que determinam os padrões de
combustível ficam nos prédios de uma petroleira.
ambientais. Por exemplo, os comitês que determinam os padrões de
combustível ficam nos prédios de uma petroleira.
A questão de as empresas serem forçadas a obedecer em vez de impedir as
restrições ambientais será um teste crítico do comprometimento de Li e
Xi Jinping, novo chefe do Partido Comunista e presidente chinês, em
reduzir a influência de interesses velados na economia.
“Durante o processo de estabelecimento do padrão, as companhias ou
conselhos do setor econômico têm muita influência”, afirmou Zhou Rong,
gerente de campanha sobre questões energéticas para o Greenpeace no
Extremo Oriente. “Minha opinião pessoal é de que mesmo existindo padrões
mais restritivos para cada segmento, as companhias os violarão.”
Segundo defensores da ecologia, em sua maioria, as montadoras chinesas
apoiaram a atualização de veículos com tecnologia mais limpa, o que os
torna mais vendáveis em âmbito mundial. Porém, uma tecnologia melhor
não funciona adequadamente sem combustível de alta qualidade e é aí que
se dá o ponto de estrangulamento. O sistema de criação de padrões para
combustível levou a brigas burocráticas ferozes.

Pressão do governo
O Ministério da Proteção Ambiental é o principal defensor governamental
de padrões de combustível elevados e melhor tecnologia automotiva. Ele
tem o poder de forçar a indústria automotiva a usar nova tecnologia
impondo normas mais rígidas de emissão de poluentes, mas não pode impor
unilateralmente novos padrões de combustível ou fazer com que estes
sejam cumpridos pelas petroleiras. O Ministério somente pode pedir que
outros ministérios ou agências relevantes entrem em ação.
de padrões de combustível elevados e melhor tecnologia automotiva. Ele
tem o poder de forçar a indústria automotiva a usar nova tecnologia
impondo normas mais rígidas de emissão de poluentes, mas não pode impor
unilateralmente novos padrões de combustível ou fazer com que estes
sejam cumpridos pelas petroleiras. O Ministério somente pode pedir que
outros ministérios ou agências relevantes entrem em ação.
Quando o padrão dos combustíveis não acompanha o ritmo da tecnologia
automotiva, o Ministério Ambiental retém a divulgação de novos padrões
de emissões e, assim, os carros não são atualizados.
Os padrões de combustível são decididos pela Agência de Padronização da
China, que convoca um comitê e um subcomitê para pesquisar critérios.
Cada um deles conta com entre 30 e 40 membros, a maioria oriunda das
petroleiras, disse Yue Xin, que participa de um dos grupos em nome do
Ministério da Proteção Ambiental.
Os integrantes das petroleiras “representam mais os interesses da
empresa”, explicou Yue. A Sinopec e a PetroChina, duas das maiores
petroleiras, insistiram para que os consumidores ou o governo paguem
pela modernização das refinarias para produção de combustível mais
limpo, e elas vêm atrasando a aprovação de padrões elevados enquanto não
houver consenso sobre quem vai bancar a conta.
“Durante anos, a Sinopec não contestou a necessidade de melhorar os
padrões chineses”, afirmou David Vance Wagner, pesquisador sênior do
Conselho Internacional de Transporte Limpo, que trabalhava para o
Ministério da Proteção Ambiental. “Eles só reclamaram do aspecto
financeiro.”
Em janeiro passado, Fu Chengyu, presidente da Sinopec, reconheceu que
as petroleiras tinham alguma responsabilidade na poluição do ar, mas
também argumentou que os padrões de combustível do governo não eram
altos o suficiente, relatou a Xinhua, a agência de notícias estatal.
Contudo, Fu não explicou que representantes das petroleiras nos comitês
de pesquisa sobre padrões de combustível têm sido o maior entrave à
aprovação de padrões melhores. Os representantes das petroleiras não
responderam aos pedidos de comentários. Em público, executivos das
companhias de petróleo tentam apontar para um culpado diferente. Este
mês, Fu afirmou a jornalistas que, “na verdade, o maior assassino é o
carvão”.
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Combinação de imagens mostra vista da região do
edifício Yintai Centre, em Pequim, no dia 29 de outubro de 2012, com forte poluição de manhã e de noite (Foto: Jason Lee/Reuters) |
Automóvel: o grande vilão
De acordo com autoridades de Pequim, as emissões veiculares representam
22% do material particulado mortal presente no ar, conhecido como MP
2,5, e outros 40% provêm de fábricas movidas a carvão em Pequim e
províncias vizinhas.
22% do material particulado mortal presente no ar, conhecido como MP
2,5, e outros 40% provêm de fábricas movidas a carvão em Pequim e
províncias vizinhas.
Em fevereiro, o Ministério da Proteção Ambiental divulgou padrões mais
severos para emissões industriais para seis setores que utilizam carvão.
O primeiro da lista é o setor de geração de energia, que representa
quase a metade do consumo de carvão na China.
Porém, a obediência às novas regras por parte das estatais pode se
revelar um problema. O Ministério da Proteção Ambiental publica listas
anuais das fábricas que violaram as regras de emissões. Segundo análise,
essas fábricas são todas comandadas pelas grandes empresas de energia.
As listas anuais representam apenas uma fração das fábricas
transgressoras, pois a instalação de equipamentos para monitoração por
parte delas é irregular e as leituras podem ser manipuladas, assegura
Kevin Jianjun Tu, estudioso de energia da Fundação Carnegie para a Paz
Internacional.
Outro problema são as penalidades baixas. As multas costumam ser
limitadas a US$ 16 mil, o que não chega a ser uma grande força
dissuasora, disse Zhou, a representante do Greenpeace. Segundo ela, as
fábricas transgressoras “deveriam ser impedidas de produzir
temporariamente; isso as forçaria a levar a questão a sério”.

