Por Ângela Prestes/ Nexjor
Um projeto que, unindo saúde e reciclagem, proporciona conforto térmico às famílias carentes.
O inverno ainda não chegou, mas nem por isso o frio se intimida. Prova disto é que ele já deu as caras aqui no sul. Chega, então, o momento de resgatar os casacos, cobertas, cachecóis, luvas e, por que não, aquele lençol térmico que já estava esquecido há meses. Para se esquentar mais ainda, basta ligar a estufa, ficar perto da lareira ou aumentar a temperatura do ar condicionado. Assim, o frio nem parece motivo de preocupação, ao menos dentro de casa.
Se algumas famílias podem desfrutar de regalias que a comodidade de um abrigo quente e protetor proporciona, outras tantas vivem com o “básico do básico” e têm uma companhia nada agradável: o vento congelante que passa pelas frestas de suas casas de madeira.
A busca e o encontro da solução
A química aposentada Maria Luisa Oliveira Camozzato ainda lembra de setembro de 2009, quando, em uma noite chuvosa e de muita tempestade, no conforto de casa, preocupou-se com a situação das famílias carentes. “Fiquei com muito medo dentro da minha casa e me dei por conta de que havia pessoas em situação de risco em suas casas, principalmente as que são cheias de frestas. Eu achava que tinha que ter uma solução. Era impossível ficar esperando que alguém doasse madeira, ou que os moradores conseguissem comprar, já que eles têm dificuldade até para comprar comida”, conta Maria Luisa.
Pensando em alguma solução, Maria Luisa teve uma “pequena grande” ideia que poderia ajudar a diminuir o sofrimento vindo com o frio e a chuva: tapar as frestas das casas de madeira com chapas feitas de caixas de leite. “Fiquei durante duas horas pensando numa solução. Como eu estudei química industrial, já tinha uma noção de como é feita a embalagem tetra pak e vi que era o material ideal.”
O projeto foi posto em prática e batizado de “Brasil sem frestas”. Porém, sozinha ela não conseguiria dar conta de tudo: arrecadar as caixas, cortar, colar e aplicar. O receio pelo futuro do projeto sumiu em pouco tempo: a ideia espalhou-se e forças uniram-se. “Montei um grupo e as pessoas acreditaram. Fizemos alguns testes e a ‘coisa’ começou a andar”, conta.
Saúde e reciclagem em um mesmo projeto
O grupo do “Brasil sem frestas” faz o trabalho de confecção e aplicação das chapas térmicas de caixas de leite com três objetivos: melhorar a saúde pública, retirar do meio ambiente um produto de alta durabilidade e fazer reciclagem direta. “Nosso objetivo é dar saúde para as pessoas por meio do aumento do conforto térmico. Nosso projeto visa ao conforto, porque nós revestimos termicamente as paredes com frestas, para evitar a entrada de frio, chuva e calor”, esclarece Maria Luisa.
Agentes de saúde ajudam na aplicação das chapas de caixas de leite.
Maria Luisa diz que o número de pessoas que se envolvem no projeto ainda é pequeno. “Estamos em 16 pessoas que se revezam. Não existe um grupo fixo, pois, como é um trabalho voluntário, a pessoa vai quando pode”, conta. É um projeto ainda novo, mas que vem gerando bons resultados. Desde 2009, cerca de 25 casas já foram revestidas com as chapas de caixas de leite. “No início pegamos casas menores, às vezes era necessário forrar uma parede só. Hoje, pegamos casas inteiras e colocamos no forro também. É um trabalho mais demorado.”
Caixas de leite, por quê?
A embalagem tetra pak contém plástico na sua parte externa e alumínio na parte interna, que é um ótimo isolante térmico. Assim, o plástico evita a entrada da água da chuva e o alumínio faz o papel de isolar termicamente o ambiente. Além disso, ela é 100% reciclável. A embalagem tem a seguinte composição:
O que significa refletir o calor?
No inverno, o calor que está dentro de casa bate no alumínio e é refletido de volta para dentro de casa. Portanto, a casa fica aquecida.
No verão, o calor está fora de casa, e, quando bate no alumínio, é refletido para fora de casa. Assim, a casa fica com temperaturas até 8ºC mais baixas.
Vantagens do uso da embalagem
– Melhora da saúde pública pelo aumento do conforto térmico
– Aplicável em climas quentes e frios
– Impede a entrada da água da chuva
– Reciclagem direta
– Método barato
– Aplicável em climas quentes e frios
– Impede a entrada da água da chuva
– Reciclagem direta
– Método barato
Dicas importantes
– Quando as frestas são grandes, é melhor colocar as chapas com o alumínio para fora, pois, antes do alumínio, há duas camadas de plástico, o que isola a água da chuva.
– Sempre desligar o disjuntor da casa no momento da aplicação.
– Vedar bem o forro para garantir eficiência de isolamento.
O passo a passo da confecção
1º – LavagemUtilizar água de lavagem e enxágue das louças para evitar desperdício de água potável.
2º- CorteAbrir as quatro abas da caixa e cortar com tesoura as extremidades superior e inferior da embalagem e, posteriormente, a emenda traseira da caixa.
3º – GrampearCom grampeador comum, una duas caixas de leite, uma em cima da outra, deixando alumínio em contato com alumínio. Forma-se uma unidade básica (UB).
4º- União de três unidades básicasGrampear três unidades básicas, formando uma chapa com seis caixas de leite. Esta chapa servirá para formação de uma chapa padrão.
5º – União de duas meias chapas padrãoA união de duas meias chapas forma a chapa padrão de utilização. Esta união é possível utilizando um grampeador de braço maior, que alcance a emenda das duas meias chapas.
6º – Fixação das chapas nas paredesA fixação dessas chapas pode ser feita com grampeadores de móveis ou com taxas de sapateiro nº 18.
E para o futuro?
O projeto está evoluindo bastante e sendo bem aceito pela sociedade. Antes, as caixas eram unidas com grampeadores para formar uma chapa. Para facilitar o trabalho, agora as caixas serão costuradas com máquinas de costura. “Essas máquinas serão compradas com o dinheiro arrecadado de um brechó que fizemos”, conta Maria Luisa. O objetivo é estender o projeto para as vilas, que sempre têm um centro comunitário, centro de saúde, igrejas. Lá, os próprios moradores podem fabricar as chapas e colocar em suas casas.
O próximo passo é conseguir um local maior para fazer a confecção das chapas e fazer também módulos de madeira, para que possam servir de divisória para as casas. “É preciso separar os ambientes. Esse é um problema social muito grave. As casas são muito pequenas e os pais acabam dormindo junto com os filhos. Não existe privacidade. Essas divisórias são baratíssimas de fazer. Queremos fazer isso o mais breve possível”. Maria Luisa ainda diz que também está pensando nas pessoas que moram nas ruas e que, mesmo que tentem levá-los, não vão para albergues. “A ideia é confeccionar sacos de dormir com caixas de leite para estas pessoas”. O objetivo do projeto é, posteriormente, proporcionar um ganho extra às pessoas que trabalham com reciclagem.
No final da tarde, com mais uma família beneficiada pelo projeto, Maria Luisa lembra das pessoas que têm se envolvido de coração no projeto, de uma ou outra maneira. Desde quem guarda a caixa de leite até quem se dispõe a aplicá-las nas casas. O agradecimento é imensurável, assim como o sentimento de dever cumprido por estar ajudando quem precisa. Mas não é só ela quem agradece. O pequeno Daniel, de sete anos, agradeceu quando estávamos indo embora: “Obrigado por forrar a minha casa”, disse ele acenando e com um sorriso no rosto.
* Veja como foi o processo de aplicação das chapas em uma casa.
* Luisa mantém um blog, onde posta fotos das casas que são revestidas
via: Agecom UPF


