Duarte
poderia ser “economia verde” – ao contrário da economia de escala, de guerra, de
mercado, de palitos, dirigida, doméstica e muitas outras. Ainda agora, passados
10 anos, o conceito não pode ser compreendido com a clareza dos
dicionários.
No entanto, já faz parte de documentos da ONU, acompanhados ou
não da definição necessária aos conceitos que determinarão nosso jeito de viver.
O documento “zero” da Rio+20 é um bom exemplo: o adjetivo “verde” acompanha o
substantivo “economia” quase 40 vezes, em 20 páginas. No entanto, não achamos
ali a definição para o novo conceito.
As possíveis definições constam em
outras peças diplomáticas e no discurso de corporações e governos. E não parecem
apontar para um modo de viver radicalmente diferente do atual, mas para o
aprofundamento da forma de produção e consumo dominante no mundo, que gera
desigualdades entre países e povos, além de múltiplas crises, como a
ambiental.
Pablo Sólon, que foi embaixador da Bolívia na ONU, lembrou que no
momento da convocatória, a Rio+20 deveria ter sido, fundamentalmente, um espaço
de avaliação dos avanços de cumprimento da Agenda 21 (acordada na Eco 92) e,
quem sabe, motivadora de seu fortalecimento.
A economia verde, no primeiro
momento, era um tema em discussão. Algo secundário. Por pressões de diversos
atores, especialmente países da União Europeia, se transformou em central –
mesmo, segundo Sólon, não tendo aceitação unânime entre as nações.
Na opinião
dele, a falta de definição do termo “economia verde” para a Rio+20 é um enorme
risco. E não considera que estejamos falando apenas de um novo slogan: “Os
entusiastas dizem que economia verde é tudo: separar o lixo, indústrias limpas,
estar com Pachamama, vender créditos de carbono, tudo isso pode ser economia
verde. E por isso não definir esta economia no documento. Se aceitamos isso,
assinamos um cheque em branco”, avalia o ex-embaixador, explicando que a Rio+20
não será o lugar de fechar tratados.
“O que querem é o mandato para formular
a arquitetura institucional necessária a criar este mercado de bens intangíveis.
Depois, o processo vai se dar praticamente sozinho”, vaticina. E segue: “Se não
temos uma posição categórica de repúdio à economia verde seremos cúmplices do
lançamento de um dos maiores negócios de roubo da natureza que será lançado no
Rio de Janeiro, em junho. É muito complicado porque há muitos interesses e um
mercado multimilionário que não vai resolver nada, mas eles esperam, vai
reverter as taxas decrescentes de lucro do sistema capitalista”.
E foi em
busca de uma “outra economia” que representantes de entidades e movimentos
sociais “críticos à economia verde” se reuniram no seminário “Rumo à Rio+20: Por
uma outra economia” *.
Além de expor alguns elementos que os fazem
“críticos”, concluíram que para encontrar um novo modo de viver não é preciso
sair do zero. Como sintetizou Maria Emília Pacheco, da Federação de Órgãos para
Assistência Social e Educacional (Fase), não faltam práticas à margem da
hegemonia, além de conceitos em construção – o bem-viver, os bens-comuns, o
decrescimento -; valores sendo reforçados, como a justiça ambiental; e lógicas
que não se regem pela subordinação direta, como a economia do cuidado – para a
qual apontam as feministas – e a economia da reciprocidade, seguida por
comunidades tradicionais e camponesas ao redor do globo.
Também a insurgência
de novos direitos, estes coletivos, em oposição aos mecanismos de propriedade
privada ou intelectual, podem ser levados em conta, somados aos direitos dos
agricultores, dos povos e da natureza (como já figura em duas constituições
latino-americanas).
O desafio, portanto, estará em tornar visíveis práticas
tão plurais quando um encontro mundial do tamanho da Rio+20 aponta,
exclusivamente, para a velha economia que vivemos, agora pintada de verde.
*
O seminário “Rumo à Rio+20: Por uma outra economia” for organizado pela
Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), ASPTA – Agricultura Familiar e
Agroecologia; Fase – Solidariedade e Educação; FBSSAN – Fórum Brasileiro de
Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional; FBES – Fórum Brasileiro de
Economia Solidária e Núcleo Amigos da Terra Brasil e SOF – Sempreviva
Organização Feminista.
Fonte: Federação de
Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase)