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Mesmo que não seja tombado, local será sempre lembrado pelas noites de boemia de Passo Fundo

Alessandra
Pasinato e Alisson Dozza

Para alguns, ele era considerado um local imoral. Para outros, um
espaço para momentos de lazer e diversão. Assim era o Cassino da Maroca, ou
para alguns, “O Palácio da Maroca” que na década de 40 e 50 agitava Passo Fundo
e atraía até personalidades regionais. Foi em fevereiro de 1941 que as portas
se abriram e por 16 anos continuaram a entreter a vida noturna na cidade.
Cabaré, cassino palácio, sala de jogos, roleta, carteado, salão de danças,
palco para show, tudo isso era comandando por Isaltina Rodrigues, a dona
Maroca.
De cassino, à DOPS, sindicato, delegacia, prédio abandonado que
abrigava viciados em drogas. O valor histórico que poderia ter se perdido no
tempo, permanece vivo na lembrança de muitas pessoas e no imaginário de quem
não viveu, mas ouviu as histórias do Cassino da Maroca. O prédio que abrigava o
cabaré era de propriedade da família Mena Barreto e o imóvel foi herdado pelos
quatro irmãos de Porto Alegre. Depois de dois anos de negociação, que iniciou
em 2008, o espaço foi adquirido em 2010, pelos advogados Ígor Loss da Silva e
Leandro Baggio Loss. Agora eles aguardam o tombamento para começar a sonhar com
as obras.

E 50 anos depois do Cassino…
Foto: Divulgação/DM- Ígor Loss da Silva e Leandro Baggio Loss
são os proprietários do prédio
O local que um dia foi o Cassino da Maroca será restaurado e vai
abrigar o escritório de advocacia e contabilidade. A grande preocupação em
preservar a estrutura original do espaço também envolve os novos proprietários,
que já compraram o imóvel com a intenção de restaurá-lo. Segundo Ígor Loss da
Silva, o prédio vai ser preservado. “Eu sou amante de coisas antigas, tenho
coleção de carros antigos, então, quando compramos o prédio, já o adquirir para
mantê-lo assim. A primeira providencia é fazer a restauração, que pretendo
começar esse ano”, explica ele.
Na primeira venda efetuada, ainda quando não havia edificação,
apenas o terreno, o valor de 500 mil réis foi pago a Candido Narciso Porto,
primeiro proprietário do local, em 1907. Em 2010, depois de anos de história, o
imóvel foi comercializado aos advogados por R$ 650 mil. “Comprei pensando no
prédio e na localização, que é central”, justifica Loss.
Para complementar os 600m² que compõe o prédio que será ocupado
pelo escritório e aumentar a capacidade de acomodação, uma nova edificação será
construída em um terreno atrás do imóvel. Também será modificada a estrutura
interna. “O que vai ser feito é trocar todo o assoalho de madeira, porque ao
caminhar parece que vai ceder, então vamos fazer o piso e a estrutura interna”,
esclarece ele. Apesar disso, Loss garante que a parte externa será restaurada
mantendo as configurações originais. “Temos a preocupação em preservar a
estrutura”, define.
Os proprietários já buscaram projetos e orçamentos pra fazer a
restauração. “O primeiro orçamento que fizemos atingia R$ 2 milhões”, comenta
Loss. Segundo ele, a demora no começo das restaurações se deve ao processo de
tombamento do prédio. “Havendo o tombamento muda bastante, ainda mais
dependendo dos termos. Então não consigo nem restaurar, o tombamento pode ser
agressivo, e se acontecer, existe multa alta caso caia uma parede, por exemplo,
esse foi o motivo de eu ter segurado as obras, isso era para estar pronto se
não tivesse o processo”, declara Loss, que pretende começar logo o trabalho.

Lutando pela restauração


Foto: Arquivo/DM-  Promotor Paulo Cirne 
tenta tombamento do prédio
Em 2007 o promotor de justiça Paulo Cirne entrou com uma ação para
que o prédio do Cassino da Maroca tivesse seu valor histórico reconhecido e
fosse tombado pelo poder público. Apesar dos esforços, que teve apoio de
arquitetos da Universidade de Passo Fundo, o desejo não foi atendido.
Depois de ter sido julgado improcedente pelo judiciário em Passo
Fundo e pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, o promotor recorreu das
decisões junto ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), que ainda analisa o caso,
e não tem prazo para dar um parecer sobre a ação. “A ação foi movida para que
aquele prédio fosse tombado e fosse reconhecido seu valor estético,
paisagístico e, principalmente, histórico. Ele faz parte da nossa história”,
justifica o promotor.

Conforme o promotor, o processo apresenta elementos que demonstram
que na época em que funcionava, o Cassino era um local que reunia muitas
pessoas de diversos municípios e que foi destaque na década de 40 e 50. “É algo
que temos que preservar. Nesse local, além do Cassino da Maroca, também serviu
de espaço para o DOPS, que marcou a nossa história com a Ditadura Militar,
então é importante que haja esse reconhecimento”, justifica Cirne.
Segundo o promotor, a sua preocupação enquanto a ação não é
julgada é que qualquer pessoa pode utilizar o prédio e, até mesmo, demolí-lo.
Apesar disso, Cirne salienta que o proprietário do imóvel pode ter problemas
caso a ação do STJ seja julgado favorável. “Se o Tribunal reconhecer o valor
histórico, o MP vai analisar a possibilidade de exigir uma indenização de quem
efetuar qualquer alteração que não esteja de acordo com a lei”, explica o
promotor.
Cirne salienta que o local até pode ser ocupado, mas é preciso que
seja respeitado algumas regras, como manter a estrutura básica do prédio. “É
preciso manter a cor original, não trocar as portas e janelas, apenas a parte
interna pode ser mudada”, observa o promotor.
Para ele, o ideal seria que o proprietário pudesse preservar a
história, disponibilizando um local para que as pessoas pudessem ter acesso a
época do Cassino, do DOPS, com informações do que acontecia nesse local, com
fotos, arquivos, livros, informações que várias pessoas têm e algumas
vivenciaram o momento. “A parte do MP foi feita. Agora é torcer para que o STJ
seja favorável a ação, caso contrário, aí acaba qualquer medida, a não ser que
o aconteça uma decisão administrativa da prefeitura ou por meio da Câmara de
Vereadores de Passo Fundo, que poderia solicitar o tombamento”, lamenta Cirne.

Revivendo a história
A história sempre permanece viva na memória e mesmo depois de anos
o Cassino ainda é relembrado pelos seus feitos. De cassino ao abandono, o local
agora tem novos proprietários, nova finalidade, porém a estrutura será
restaurada, mantendo o formato original do prédio que abrigou o Cassino da
Maroca. “Eu aprendi a dançar tango ali”, diz um antigo freqüentador do local,
relembrando a época em que nos finais de semana a diversão era garantida. “Tocavam
samba, rumba, boleros, tango, milonga. A gente viveu essa época, e isso é uma
experiência muito bacana, tenho uma lembrança boa da época”, explica ele.

Foto: Alisson Dozza- Prédio do Cassino da Maroca deverá ser restaurado ainda este ano
O jovem, hoje com 81 anos, conta que o ambiente era praticamente
normal, como qualquer outro. “Tudo bem organizado e, inclusive, à noite haviam
reuniões”, conta. O estabelecimento funcionava de segunda a sábado e a animação
ficava por conta das duas orquestras e de uma banda típica, que faziam a
apresentação ao vivo. “O ambiente em si, por ser uma região de prostituição,
era bem quieto, não havia arruaça e todo mundo se respeitava”, pontua ele, que
precisava de roupa de gala para poder freqüentar o local.

No ambiente, haviam pessoas sentadas, com mesas, salão no centro para dançar e
no canto a orquestra. “Era assim, luzes coloridas e dependendo da música mudava
o ambiente. Pessoas fumavam lá dentro, não tinha restrição, todo mundo fumava”,
relembra ele, que na época tinha seus 20 e poucos anos. A maioria dos
freqüentadores era jovem e somente era permitido freqüentar o espaço depois dos
21 anos. A fiscalização era severa quanto à isso. “Tinha policiamento em todo
setor, qualquer coisa estavam em cima. Havia o comissário de menores, nomeado
pelo juizado de menores, que fazia o controle”, destaca ele.


E a Maroca? “A Maroca era uma pessoa de idade, quase não
aparecia”, descreve o freqüentador. Ela morava em outra casa e tinha pessoas de
confiança que faziam o trabalho para ela. O local abria somente no turno da
noite, de segunda à sábado e com horário de fechamento até 3h ou 4h. “Todas as
mulheres do cassino, a vestimenta era diferente, eram mulheres elegantes e se
vestiam bem, não havia roupas exageradas de estarem se mostrando”, frisa.
Segundo conta o freqüentador, quando a cidade começou a crescer, o
local se tornou a zona do meretrício que estava dificultando o desenvolvimento
da cidade e as famílias que começaram a morar por ali, passaram a ficar
incomodadas com a situação e aos poucos se eliminaram as casas de prostituição,
inclusive, o Cassino da Maroca.
Posteriormente, o prédio abrigou a unidade do DOPS, Departamento
de Ordem Política e Social, um órgão do governo que controlava e reprimia os
movimentos políticos na época da ditadura. Ainda foi sede de sindicatos,
delegacia e, não poderia ser diferente, o prédio, que hoje está abandonado mas
pretende ser restaurado, atraia milhares de pessoas até a Rua XV de novembro,
esquina com a General Osório. Por ali, passaram forasteiros, políticos, gente
da alta sociedade, em busca de jogos e mulheres.
Atrações musicais
Foto: Arquivo/MAVRS-Bandas da Argentina e Uruguai animavam as noites
Além da jogatina e de belas mulheres, outra atração do Cassino da
Maroca eram os shows musicais. As orquestras geralmente vinham da Argentina e
do Uruguai. Uma das principais atrações era a banda do maestro Zabalia, que
tinha como principal instrumento o acordeom. Para que outros clubes pudessem
ter apresentações da Orquestra Típica Zabalia, era preciso pedir autorização
para Maroca. Tango, boleros e valsa ingênua alimentavam a noite da Rua XV. Para
os mais sortudos, que sabiam dançar, as chances de conquistar o coração de uma
das mulheres da Maroca aumentavam.
 
Lembrança
Foto: Repodução- Obras de Ruth Schneider retratam a vida no Cassino da Maroca
Com o fechamento do Cassino da Maroca, em 1957, ficaram apena as
lembranças, de quem presenciou o dia-a-dia do meretrício, como de quem
costumava frenquentar o local. Entre as pessoas que costumavam ouvir as
histórias do cabaré, estava a artista plástica Ruth Schneider (1943-2003). Suas
obras são marcadas por acontecimentos da década de 40.
A história acabou se transformando em arte e, quando a artista
plástica criou a série “Cassino da Maroca”, onde retratou a mais famosa casa de
prazeres de Passo Fundo. Sua obra revela a vida noturna através de personagens
como a Maroca, o Cabareteiro Flores, a Maria Bigode, entre outras figuras que
costumavam frequentar o local.

Curiosidades e memórias do Cassino da Maroca
– a abertura formal de inauguração do Cassino Palácio aconteceu em
meados de fevereiro de 1941;
– no tempo em que o Cassino funcionava em Passo Fundo, o Velho Mundo se
encontrava numa grave crise com o início da Grande Guerra;

– o Cassino Palácio funcionava na década de 40 com o nome de Cassino da Maroca
em função do codinome da proprietária Isaltina Rodrigues;

– o Cassino tinha fama, glamour e sucesso de um meretrício que ficou na memória
de homens ricos e empresários importantes na época;
– na década de 40 a cidade passava pelo chamado “boom” da indústria madeireira,
que tinha principal produto os pinhais, além do contrabando de pneus, encerrado
na Argentina;
Foto: Alisson Dozza-  Piso corre risco de desabar 

Foto: Alisson Dozza- Espaço interno
será modificado e externo será preservado
– alguns habitantes mais antigos guardam saudosas memórias vivas
de um meretrício que modificou a vida noturna da região norte do Estado;

– Dona Maroca contratava diariamente cerca de 30 lindas mulheres que
trabalhavam à noite em companhia dos frequentadores e portavam obrigatoriamente
uma carteirinha de prostituta; ficavam no Cassino por no máximo vinte dias;
quando criavam casos mais privados com os frequentadores da casa eram mandadas
embora e empregadas em outras casas noturnas que não o Cassino Palácio;

– conjuntos musicais argentinos e uruguaios do mais alto gabarito viravam
noites divertindo homens ao som de valsas, samba, milongas e boleros;
– o Cassino era considerado, segundo memórias do tempo, um lugar não só de
diversão mas de demolição de fortunas devido ao envolvimento que os homens
mantinham com o jogo e as prostituas;
– à época, dificilmente se encontravam homens pobres, pois ironicamente o único
homem pobre ali era o “macanudo”, que cuidava de carros e caminhões
estacionados em frente ao Cassino e, em troca, ganhava um dinheirinho para a
bebida. Dizia-se: o único ladrão era mesmo o “macanudo” que, com a bebida,
podia se ocupar e desistir de roubar alguma coisa;
– o Cassino funcionou na Rua XV de novembro, esquina com General Osório de 1941
à 1957, portanto, dezesseis anos;
– baseado em suas memórias infantis, Ruth Schneider encontrou campo fértil para
a montagem de suas obras, pois seus pais e amigos que o Cassino Palácio
oferecia.



Via: Diário da Manhã

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