Parque Ambiental Banhado da Vergueiro – Passo Fundo – RS – Imagem Google Earth Pro 2026
Entidade apresentou e entregou ao Conselho Municipal de Meio Ambiente diagnóstico com espécies invasoras, problemas de manejo, impactos sobre a biodiversidade e propostas para transformar o Parque em referência de conservação urbana
Passo Fundo — No coração de Passo Fundo, cercado pela urbanização, existe uma área que cumpre uma função que vai muito além do lazer. O Parque Ambiental Banhado da Vergueiro abriga água, vegetação e fauna e representa um dos principais remanescentes naturais inseridos na área urbana do município.
Mas esse patrimônio ambiental enfrenta problemas que podem comprometer sua conservação.
Foi diante desse cenário que o Grupo Ecológico Sentinela dos Pampas (GESP) apresentou ao Conselho Municipal de Meio Ambiente (CMMA) de Passo Fundo uma proposta de manejo ambiental para o Parque. O documento reúne um diagnóstico das principais ameaças identificadas e propõe uma série de medidas para recuperação ecológica, proteção da biodiversidade, qualificação da infraestrutura e fortalecimento da gestão.
A proposta parte de uma premissa central: a função ambiental deve ser a prioridade do Banhado da Vergueiro.
Um oásis natural cercado pela cidade
Em meio à expansão urbana, o Banhado da Vergueiro funciona como uma espécie de ilha de natureza dentro da cidade.
Para o GESP, sua importância pode ser compreendida em três dimensões: conservação ambiental, uso comunitário e educação para a sustentabilidade.
O Parque protege elementos naturais em uma região densamente urbanizada e possui ainda uma função educativa por meio da Escola de Sustentabilidade, aproximando estudantes e comunidade dos temas relacionados à conservação da natureza.
Em tempos de crise climática, a existência e a preservação de áreas verdes e ambientes úmidos urbanos ganham uma dimensão ainda maior. São espaços que integram a paisagem, contribuem para a biodiversidade e podem desempenhar funções ambientais importantes diante das transformações do clima e da urbanização.
Vegetação invasora avança sobre o ambiente natural
Um dos principais alertas apresentados pelo GESP está relacionado à presença de espécies exóticas e invasoras.
O diagnóstico cita a ocorrência de capim Tifton (Cynodon spp.), copo-de-leite (Zantedeschia aethiopica) e agulha-de-adão (Yucca filamentosa).

Também foram identificadas espécies arbustivas e arbóreas como nêspera, amoreira-preta, mamona e cinamomo.
O problema, segundo a proposta, não é apenas a presença dessas plantas, mas a capacidade de algumas delas de ocupar espaço e competir com a vegetação nativa, dificultando processos de regeneração natural.
A proposta apresentada ao CMMA defende a criação de um programa permanente de controle e supressão de espécies exóticas invasoras, associado à restauração da vegetação nativa.
Plantas parasitas ameaçam árvores
Outro alerta está relacionado ao avanço de plantas trepadeiras, favorecido por alterações nas condições ambientais, como maior entrada de luz e aumento da temperatura.
O documento também chama atenção para a possível ocorrência de cipó-chumbo (Cuscuta spp.) e espécies conhecidas como erva-de-passarinho (Struthanthus spp. e Phoradendron spp.).

Essas plantas podem parasitar ou enfraquecer árvores hospedeiras. O controle, portanto, é apontado como uma das ações necessárias dentro de uma estratégia mais ampla de manejo da vegetação.
Quando o próprio manejo vira problema
A proposta do GESP também questiona determinadas intervenções realizadas no Parque.
Entre os exemplos apontados está o plantio de exóticas ao ecossistema de banhado e da mata Atlântica, além da retirada de caraguatás (Eryngium sp.), plantas características desses ambientes.
A presença de entulhos e antigas estruturas também aparece entre os problemas que precisam ser enfrentados.
A questão levantada pela entidade é direta: manejar uma área natural não significa simplesmente retirar aquilo que parece indesejado ou plantar aquilo que parece adequado. A intervenção precisa considerar a dinâmica ecológica específica do ambiente.
Fauna também dá sinais de desequilíbrio
O diagnóstico apresentado pelo GESP inclui ainda a situação da fauna.
A superpopulação de pombas-rolas (Zenaida auriculata) é citada como um possível indicador de desequilíbrio ecológico que merece acompanhamento.

Outra proposta é impedir a entrada e permanência de animais domésticos no interior do Parque, reduzindo possíveis interferências sobre a fauna silvestre e os processos ecológicos.
A medida, segundo a proposta, deverá ser acompanhada por sinalização e educação ambiental para os frequentadores.
GESP propõe ampliar o Parque
O debate não se limita à vegetação e à fauna.
O GESP defende a retomada do projeto original de ampliação do Parque, incluindo a desapropriação de lotes previstos para a expansão da área protegida.
Também está entre as propostas o encerramento do tráfego na Rua Tomé Mendes, associado à criação de um passa-fauna que permita conectar diferentes setores do Parque.
A ideia é reduzir a fragmentação do ambiente e criar melhores condições para o deslocamento da fauna.
Acessibilidade: natureza para todos
Outro ponto da proposta é tornar o Parque mais acessível.
O GESP defende a implantação de mais rampas e corrimãos e a inserção de pisos podotáteis, mapas sensoriais e adaptações para pessoas no espectro autista, incorporando diferentes formas de acessibilidade à estrutura do espaço.
A proposta busca fazer com que a democratização do acesso à natureza caminhe junto com a conservação ambiental.
Guarda-Parque volta à pauta
Entre as medidas de gestão está também o resgate da proposta de criação da função de Guarda-Parque, que já foi discutida no âmbito do Conselho Municipal de Meio Ambiente.
A função poderia contribuir para orientar visitantes, acompanhar o cumprimento das regras de uso, apoiar ações de fiscalização e auxiliar no monitoramento das condições ambientais.
O GESP também propõe capacitação continuada para gestores e funcionários, especialmente em conservação, biodiversidade, manejo ambiental e educação para a sustentabilidade.
Um Plano de Manejo para o futuro do Banhado
A principal proposta apresentada ao CMMA é a elaboração e implementação de um Plano de Manejo Ambiental para o Parque Ambiental Banhado da Vergueiro.
O instrumento deverá estabelecer critérios claros para a conservação, restauração, uso público, controle de espécies invasoras, educação ambiental, acessibilidade e monitoramento ecológico.
Entre as diretrizes apresentadas pelo GESP estão:
• Priorizar a função ambiental do Parque;
• Elaborar e implementar o Plano de Manejo Ambiental;
• Ampliar a área física e promover restauração ecológica;
• Controlar e suprimir espécies exóticas invasoras;
• Restringir a entrada e permanência de animais domésticos;
• Capacitar gestores e funcionários;
• Retomar a criação da função de Guarda-Parque;
• Garantir acessibilidade universal.
O futuro de uma área natural no coração de Passo Fundo
A proposta apresentada pelo GESP abre uma discussão que ultrapassa os limites do Parque.
A questão é que tipo de espaço natural Passo Fundo pretende preservar dentro de uma cidade cada vez mais urbanizada e diante de um cenário de crise climáticas.
Para o Grupo Sentinela dos Pampas, o Banhado da Vergueiro pode continuar sendo uma referência de conservação, educação ambiental e convivência com a natureza. Mas, para isso, é necessário planejamento, manejo técnico, restauração ecológica e uma gestão capaz de reconhecer que a área possui características próprias de um ambiente natural.
Mais do que uma área verde no centro da cidade, o Banhado representa um patrimônio ambiental que precisa ser conhecido, cuidado e protegido.

A proposta agora está colocada na mesa do Conselho Municipal de Meio Ambiente. O desafio é transformar as diretrizes em ações concretas e garantir que o Banhado da Vergueiro continue existindo — não apenas como espaço de visitação, mas como um ambiente natural vivo dentro de Passo Fundo.
Fotos: Arquivo GESP