Coleção guarda a memória ambiental de Passo Fundo e da relação do movimento ecológico gaúcho com o poder público
Mais de 20 mil peças estão passando por um detalhado processo de tratamento e seleção – Foto: Divulgação/GESP
Um trabalho silencioso, acumulado ao longo de quase cinco décadas de atuação voluntária, agora ganha forma, organização e acesso público. O Grupo Ecológico Sentinela dos Pampas (GESP) inaugura nesta sexta-feira (20), o Arquivo Sentinela, um espaço físico e digital que reúne mais de 20 mil documentos e peças que registram a história ambiental de Passo Fundo e a relação do movimento ecológico gaúcho com o poder público.
Instalado na sede da entidade, localizada nos fundos do Teatro Múcio de Castro, o acervo passa a contar com estrutura adequada de armazenamento e também com disponibilização online por meio da plataforma Tainacan, ferramenta oferecida pelo Ministério da Cultura, através do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram).
A presidente do GESP, Flávia Biondo, explica que a iniciativa nasceu da necessidade de organizar um material que foi sendo guardado ao longo de décadas, mas que permanecia sem estrutura técnica adequada. “Temos um acervo extremamente rico, que conta a história ambiental de Passo Fundo e toda a relação com o Estado e com o movimento ecológico gaúcho. Era um material acumulado ao longo de quase 50 anos, guardado na sede, mas em situação precária de organização, porque todo o nosso trabalho sempre foi voluntário”, relata.
Segundo ela, o projeto permitiu que o grupo partisse praticamente do zero em termos estruturais. “Não tínhamos equipamentos nem estrutura apropriada para guardar esse material. O projeto viabilizou tanto a organização física quanto a digital”, afirma.
Organização técnica e processo contínuo
O trabalho envolve uma série de etapas: seleção, limpeza, acondicionamento, catalogação, digitalização e registro. A organização física do espaço e do acervo conta com a orientação da museóloga Tânia Aimi, enquanto a parte digital tem apoio de profissionais com experiência em museologia e história.
Embora já haja materiais disponíveis no site do grupo, dentro da seção Arquivo Sentinela, o processo está longe de terminar. “É um trabalho lento. A gente imaginava que em um ano conseguiria dar conta de uma parte significativa, mas cada documento exige um cuidado técnico. Agora sabemos que será um trabalho de longo prazo”, explica Flávia.
A estimativa inicial aponta para cerca de 20 mil documentos a serem organizados e preservados, número que ainda pode crescer à medida que o acervo passa por triagem mais detalhada.
Coleções revelam trajetória ambiental
O Arquivo Sentinela está dividido em diferentes coleções, permitindo ao público compreender a amplitude da atuação do GESP e de outros grupos parceiros, como a Sociedade Botânica.
Entre os conjuntos documentais estão uma “Coleção Documental”, com ofícios, correspondências, registros de políticas públicas e documentos que mostram a interlocução do grupo com os poderes governamentais; “Coleção Institucional”, que conta com materiais que registram a constituição e a trajetória formal do GESP; “Coleção Fotográfica”, com imagens que retratam ações, mobilizações e eventos ao longo das décadas; “Coleção de Jornais”, com vasto acervo de recortes e exemplares com foco em pautas ambientais e na atuação do movimento ecológico; e a “Coleção Educativa”, que contempla materiais produzidos para atividades de educação ambiental, incluindo registros de projetos e ações culturais, como apresentações teatrais desenvolvidas pelo grupo.
Flávia destaca que essa última coleção pode ser especialmente útil para escolas. “Há muito material que pode ser consultado por professores e estudantes para desenvolver trabalhos em sala de aula”, afirma.
Exposição marca inauguração
A inauguração oficial não representa o encerramento do trabalho, mas sim o início de uma nova fase. Além da apresentação do espaço reorganizado, será lançada a exposição “Arquivo Sentinela”, que mostra ao público parte do material já catalogado e a transformação do ambiente físico da sede.
O projeto contou com recursos do Plano Nacional Aldir Blanc (PNAB) do Pro Cultura do Estado e deve ter continuidade com novos aportes via Funcultura municipal.
Espaço aberto à comunidade
Com cerca de 30 integrantes vinculados ao grupo, sendo aproximadamente 10 atuantes de forma mais direta, o GESP mantém seu caráter voluntário, mas agora com maior capacidade de atendimento à comunidade.
As visitas ao Arquivo Sentinela poderão ser realizadas mediante agendamento prévio. Em breve a entidade pretende receber escolas para atividades direcionadas e ampliar a divulgação do trabalho. “Queremos que as pessoas conheçam essa história e que isso também motive a criação de novos grupos. Hoje estamos praticamente sozinhos nesse processo. Preservar essa memória é também fortalecer o movimento ambiental”, ressalta a presidente.