
Cenário em diversos pontos de Passo Fundo é de descarte irregular de objetos. Jean Pimentel / RBS TV/ Reprodução
Sacolas, garrafas e roupas são vistos com frequência em locais inadequados.
Jean Pimentel / RBS TV/ Reprodução
Poluição afeta não só o local do descarte, mas também ao redor.
Além do impacto ambiental, descarte irregular gera transtornos para moradores e aumenta custos de limpeza pública
Por Tatiana Tramontina
Repórter
Sofás abandonados, colchões jogados em terrenos, restos de móveis, entulho e até animais mortos. Cenas como essas fazem parte da rotina de diferentes bairros de Passo Fundo, no norte do Estado e revelam um problema que vai muito além da poluição visual.
O descarte irregular de resíduos continua sendo uma reclamação frequente da população e preocupa moradores, ambientalistas e o poder público. Além dos transtornos causados a quem vive próximo desses locais, o lixo descartado de forma inadequada acaba chegando aos rios, córregos e áreas de preservação, especialmente em períodos de chuva intensa.
“Não dá dois dias e está tudo cheio de lixo de novo”
No bairro São Luiz Gonzaga, o soldador Volnei Ferreira Ribas convive com a situação há pelo menos uma década. Morador da região há mais de 40 anos, ele conta que a comunidade frequentemente precisa se mobilizar para limpar o local por conta própria.
— A gente limpa. Meu irmão limpa, meu vizinho também ajuda. Porque, senão, nem sei como estaria isso aqui. A prefeitura vem de tempos em tempos e faz uma limpeza, mas não passa dois dias e está tudo cheio de lixo de novo — relata.
Segundo ele, o problema vai além dos móveis e entulhos descartados.
— É de tudo que é bicho que eles jogam aí. E a gente acaba fazendo um buraco na terra para enterrar porque não dá para aguentar o cheiro — conta.
A história muda de endereço, mas se repete em diversas regiões da cidade. Na Vila dos Ferroviários, o aposentado José Teixeira afirma que perdeu a conta de quantas vezes presenciou o descarte irregular próximo de casa. Segundo ele, grande parte do material é deixada durante a madrugada ou em horários de pouca movimentação.
— Eles vêm e colocam de madrugada, de noite ou bem cedo. A gente acorda e o lixo está ali. Eu já recolhi muito lixo perto da casa e até queimei porque não dava mais para suportar. Quando vem uma chuva grande, esse lixo acaba entupindo os bueiros. A água não consegue escoar direito e acaba indo para outras casas — diz.
O lixo não para onde é descartado
Se em um primeiro momento o descarte irregular parece atingir apenas terrenos baldios ou áreas públicas, o problema costuma seguir outro caminho. Durante períodos de chuva, parte dos resíduos é carregada pela água e acaba chegando aos rios e córregos urbanos.
Para o diretor do Grupo Ecológico Sentinela dos Pampas, Paulo Fernando Cornélio, o acúmulo de resíduos interfere diretamente na dinâmica dos rios. Segundo ele, quando lixo e entulho ocupam o espaço por onde a água deveria circular, o resultado costuma aparecer em períodos de chuva mais intensa.
— Quando rios e riachos acumulam uma quantidade muito grande de resíduos, eles perdem parte da capacidade de escoar a água. O rio precisa de espaço para que esse fluxo aconteça de forma adequada. Quando isso não ocorre, a água avança para as margens e acaba impactando as famílias que vivem nesses locais. De acordo com Cornélio, os prejuízos podem ser significativos.
— Muitas vezes essas famílias perdem aquilo que construíram ao longo de toda a vida em consequência dos alagamentos — comenta.
Educação ambiental e fiscalização são apontadas como desafios
Para o ambientalista, resolver o problema envolve duas frentes principais: conscientização e fiscalização.
— Primeiro, existe a necessidade de fortalecer a educação ambiental. Segundo, é preciso ampliar a fiscalização e a presença do poder público para evitar que essas situações continuem acontecendo.
Segundo ele, apenas retirar o lixo das áreas atingidas não resolve o problema de forma definitiva.
Prefeitura diz que realiza fiscalização
A Secretaria Municipal do Meio Ambiente afirma que mantém equipes responsáveis por fiscalizar áreas com histórico de descarte irregular e também atua a partir de denúncias feitas pela população. Quando os responsáveis são identificados, podem ser autuados e multados.
O secretário municipal do Meio Ambiente, Eduardo Hammel, afirma que a principal dificuldade está em flagrar a irregularidade.
— O ideal é receber a denúncia e encontrar o infrator no momento em que ele está realizando o descarte. Mas, na maioria das vezes, quando a equipe chega ao local, a pessoa já foi embora.
Quando não é possível identificar o responsável, a remoção do material passa a ser feita pelos serviços municipais de limpeza.
Às margens do Rio Passo Fundo, a Prefeitura mantém caçambas destinadas ao descarte adequado de resíduos. Além disso, duas barreiras flutuantes foram instaladas para tentar reter parte do lixo transportado pela correnteza.
No entanto, durante os temporais registrados recentemente, as estruturas acabaram sendo arrastadas pela força da água. Segundo a administração municipal, a reinstalação das barreiras deve ocorrer após a redução do nível do rio.
Como descartar corretamente
A prefeitura orienta que moradores utilizem os canais oficiais para se desfazer de móveis velhos, eletrodomésticos e outros materiais volumosos.
Segundo Hammel, a população pode procurar a Secretaria Municipal do Meio Ambiente para receber orientações sobre a destinação correta dos resíduos. Também é possível solicitar a coleta de materiais volumosos junto à Secretaria de Serviços Gerais.
O serviço pode ser agendado pelo telefone (54) 3313-7576 ou por meio do aplicativo Cidadão Online.
Os resíduos recolhidos são encaminhados ao Ecoponto Municipal, localizado na Rua Eduardo de Brito, no bairro Annes, onde a população também pode realizar o descarte diretamente.