Encontro das Cáritas Arqui/diocesanas do Norte do Estado aconteceu nos dias 5 e 6 de agosto de 2026 em Erechim
Publicação: 14/08/2026

Chuva de granizo: ansiedade climática durante o encontro de formação
A bióloga Flávia Biondo da Silva, da Universidade de Passo Fundo (UPF), explicava o cenário das mudanças do clima em nível mundial e na região norte do Estado quando começou uma chuva de granizo no Erechim (RS). Ficou impossível prosseguir: pelo barulho e pela tensão que tomou conta do salão do Santuário Nossa Senhora de Fátima. Todas e todos participantes da etapa do Interdiocesano Norte do “Programa de Formação Regional: a Ética do Cuidado Ambiental e das Pessoas” ali reunidos aguardaram, esperando pelo que viria a acontecer. Algumas pessoas foram para as janelas gravar, com seu celular, para registrar o tamanho das pedras de granizo. Até que uma pessoa puxou uma oração. E outra pessoa, e mais outra, e mais outra saíram das janelas e foram se juntando no centro do salão, até que um grande círculo unido por mãos e emoções rezou em uníssono, fazendo ecoar um som mais alto do que o da chuva. Tão logo a tempestade acalmou, Roseli Pereira Dias, assessora da Cáritas Regional RS, chamou todo mundo para voltar ao trabalho.

Simbolismo: de mãos dadas, em oração, grupo esperou a chuva acalmar para prosseguir com o encontro
Este momento simbólico de fé e presença transformadora diante da ansiedade causada pelas emergências socioclimáticas na prática permeou o encontro durante os dias 5 e 6 de agosto de 2026. Organizado pela Cáritas Regional RS, em articulação com as Cáritas Arqui/Diocesanas de Passo Fundo, Vacaria e Erexim, o evento reuniu agentes das Cáritas Interdiocesanas da Região Norte, além de Pastorais e de outras entidades parceiras para aprofundar a temática socioambiental e climática. O objetivo do Programa de Formação é refletir sobre o contexto das emergências climáticas e seus impactos em cada região, e como atuar sobre este tema junto com as comunidades, em consonância com as orientações da Cáritas Internacional e os princípios da Doutrina Social da Igreja e da pastoralidade transformadora.
A programação em Erechim incluiu uma visita à Barragem da Hidrelétrica de Itá, localizada no rio Uruguai, no município de Aratiba (RS). Em uma reunião realizada dentro do Museu do Balseiro, o grupo escutou atentamente a história dos balseiros do rio Uruguai e dos impactos da barragem para a população local em uma roda de conversa com Nilo Brand, morador da região, e com Marcio Luiz Romanoski, coordenador do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) no Alto Uruguai.

“A visita à Barragem da Hidrelétrica de Itá contribuiu para aproximar a reflexão da realidade concreta, favorecendo uma percepção mais ampla das relações entre território, recursos naturais, desenvolvimento e vida das comunidades”, avaliou Dione Maria de Almeida Gollo, coordenadora de Pastoral atendida pela Cáritas em Lagoa Vermelha.

Missa pelos 70 anos da Cáritas Brasileira: momento de reafirmar a fé e presença transformadora
No final do primeiro dia de encontro, aconteceu a celebração eucarística pelos 70 anos da Cáritas Brasileira, com missa no Santuário Nossa Senhora de Fátima celebrada por Dom Sílvio Guterres Dutra, bispo referencial da Cáritas RS.
A Cáritas da Paróquia Nossa Senhora da Salete de Erechim gentilmente ofereceu um jantar a todas as pessoas participantes da formação, com um delicioso bolo de aniversário em homenagem aos 70 anos da Cáritas Brasileira.

Imersão territorial e as reflexões no grande grupo

No dia seguinte, em sua intervenção, a professora e bióloga Flávia Biondo da Silva, que é do Grupo Ecológico Sentinela dos Pampas (GESP), propôs um exercício de imaginação a partir da visita à área da barragem e ao Museu do Balseiro. No local havia um tronco de um cedro de mais de um metro de diâmetro. “Imaginem aquele cedro vivo. Quantos metros devia ter? Uns 40 metros, no mínimo. Temos árvores assim hoje no Estado do Rio Grande do Sul?”, perguntou. O cedro, explicou, era de 150 anos atrás. Angicos, araucárias, pinheiros, guajuviras foram testemunhas da destruição, e hoje não encontramos mais árvores destes diâmetros. Lembrou também que as raízes destas árvores, profundas igualmente, seguravam o solo que agora é visível na cor da água da Barragem de Itá.
Em sua análise, a bióloga destacou a relação entre o que ocorre no Planalto e no Alto Uruguai e a situação da Região Metropolitana de Porto Alegre. “Aqui temos vendaval e secas porque estamos nas cabeceiras dos rios. Quando há estiagem, o nível hidrostático baixa nas nascentes, e sofremos. Estamos contribuindo com várias bacias hidrográficas que vão se juntar com outras, então temos corresponsabilidade com as situações que ocorrem nas regiões mais baixas”, complementou.
Segundo Flávia, é preciso encontrar soluções para segurar a água. Ela lembrou dos impactos de um processo de manipulação que mata o solo: êxodo rural, drenagens e soterramentos de nascentes e banhados, desmatamentos para o plantio de soja. “Precisamos fazer com que nossos netos e netas aprendam o que é uma araucária, uma guabiroba, e que, ao retirar uma árvore, esta ação diminui a biodiversidade do entorno.
Lucas D’Ávila, da Cáritas Brasileira, e Roseli Pereira Dias, assessora do Secretariado Regional da Cáritas RS, apresentaram aspectos da Política Nacional de Proteção e Defesa Civil e da metodologia da Cáritas a partir das experiências acumuladas na área de atuação de Meio Ambiente, Gestão de Risco e Emergências.
“A Defesa Civil deve atuar antes, durante e depois, mas geralmente só é conhecida no momento depois das emergências”, lembrou Roseli Ela mostrou a página na Internet do Plano “Prepara RS”, onde se poderia encontrar os planos de contingência dos municípios no Estado, e questionou se alguém presente no encontro sabia ou se foi convidado/a a participar da elaboração do Plano de Contingência de sua cidade. A resposta negativa geral demonstra, segundo a assessora, a desconsideração com a participação popular, essencial para a construção destes planos.

“A ganância pelo lucro é proporcional às emergências socioambientais”, disse Lucas. “As emergências vão aumentando e as desigualdades sociais também”, acrescentou. Entre outras informações, Lucas salientou uma das fronteiras planetárias preocupantes dos tempos atuais: a presença de microplástico nos nossos corpos contaminados. Riscos, desastres, capacidades – estes conceitos foram sendo explicados e compreendidos num diálogo enriquecedor.
Roseli conduziu depois uma dinâmica com duas situações hipotéticas de enfrentamento às emergências socioclimáticas, propondo ao grupo discutir ações imediatas e campanhas de alerta e solidariedade.
Hora de multiplicar conhecimento nos territórios

Cuidados na comunidade: Beloni Oliveira, coordenadora nacional do CONAQ RS
“O encontro de formação foi muito útil para nossa comunidade, pois abrange os cuidados que a nossa comunidade quilombola já tem com meio ambiente, e também com os descartes dos lixos de forma correta”, disse Beloni Oliveira, do Quilombo da Mormaça, localizado no município de Sertão. Beloni é conselheira tutelar e coordenadora nacional da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Quilombolas Rurais (CONAQ) do Rio Grande do Sul. “Também nos ensinou que devemos sempre estar preparados tanto psicologicamente como fisicamente para o enfrentamento das mudanças climáticas. E, principalmente, trabalhar em união com a comunidade e com outras pessoas”, concluiu.
Janete Teresinha Arenhart, coordenadora da Cáritas Paróquia Imaculada Conceição de Getúlio Vargas (RS), chamou a atenção para a imersão intensiva proporcionada pelo encontro, que propiciou refletir sobre a responsabilidade humana e o comprometimento com o meio ambiente e o bem-estar coletivo. “Esse momento me despertou que os seres humanos têm total responsabilidade moral e ética para com o meio ambiente e outras espécies que nele habitam. Me convenci também que a ética é especialmente importante, porque estamos diante de diversos desafios que afetam a nossa vida em comum, principalmente os desastres climáticos”, salientou Janete.
Leandro Basso, secretário municipal da Assistência Social de Erechim, participou em uma parte do encontro de formação e deixou uma mensagem de valorização do trabalho da Cáritas e reconhecimento pela importância da atividade.