Por Flávia Biondo da Silva, bióloga, produtora cultural e presidente do GESP
Imagem: Projeto Navegar – Rio Jacuí, Arquivo GESP
No passado, durante a colonização, as populações se fixaram nas margens dos rios, pois a água era o principal meio de sobrevivência, sendo utilizada para todas as atividades humanas, desde a alimentação até o transporte. Posteriormente, também passou a ser utilizada na industrialização, como força mecânica para ferrarias e moinhos, além da produção de energia elétrica. A água e as árvores, por meio da produção de madeira para aquecimento, abrigo e comercialização, fizeram o Rio Grande do Sul crescer em população e economicamente, adentrando o continente pelos rios afluentes que formam o Rio Guaíba. Assim, o território foi sendo ocupado e, em cada época, a água desempenhou sua função de contribuir para o “crescimento” do Estado.
Dessa forma, cresceram as cidades às margens dos rios. Esses rios chegaram a um momento em que deixaram de cumprir sua função, pois foram completamente transformados pela destruição de suas matas ciliares protetoras, pelo assoreamento de seus leitos com o acúmulo de detritos, pelo alargamento de suas margens em decorrência da erosão e pela impermeabilização dos solos. Sua função de navegabilidade transformou-se em navegação de lixo, esgoto, toxicidade e morte. No lugar de levar água e nutrientes das montanhas até os mares deu lugar à de carregar os resíduos do consumo desenfreado da humanidade.
Hoje, os rios nas áreas urbanas parecem não ter mais função. Como não é possível transferi-los para outro lugar, são contaminados, congestionados de lixo, alinhados, canalizados, entubados e encobertos por asfalto, concreto, casas e prédios. Além disso, acabam acolhendo a vulnerabilidade humana daqueles que não têm oportunidade de construir suas casas em locais altos e estruturados pelo capitalismo selvagem. E não é diferente no meio rural, onde se secam nascentes e banhados e se destroem matas ciliares para obter lucro, a um custo elevado de contaminação das águas, perda das produções e criações e endividamentos sem fim.
Em tempos de emergência climática, é preciso repensar a função dos rios, observar as leis da natureza e reconstruir paradigmas. Atualmente, reter e manter a água nas cabeceiras das bacias hidrográficas é um desafio necessário, e buscar alternativas por meio de soluções baseadas na natureza é um caminho que pode diminuir as consequências das estiagens e secas, além de minimizar os impactos das enchentes e alagamentos. Da redução da impermeabilização dos solos nas áreas urbanas e rurais à ampliação das áreas verdes, passando pela recuperação das Áreas de Preservação Permanente (APPs), das nascentes e dos banhados, por licenciamentos ambientais mais restritivos, pelo controle do adensamento populacional, pela relocação da população vulnerável, pela diversificação da produção de alimentos (agroecológicos e agroflorestais), pelo aproveitamento de espaços ociosos e pela educação ambiental crítica e permanente, é necessário um conjunto de medidas pois apenas a desobstrução e a drenagem de riachos e rios não são suficientes.
Do passado ao presente, a humanidade evoluiu tecnologicamente, reduzindo o esforço na produção. No entanto, em relação à degradação ambiental, continua presa à lógica de que tudo é recurso e de que os recursos são ilimitados. O gene se transfere, o recurso se esgota, mas a natureza se transforma e sobrevive, impondo consequências cada vez mais caras à humanidade. E talvez o próprio gene não resista.